sábado, 5 de maio de 2018

Dizem que amanhã é dia delas - mãe

Há uma fotografia em que ela está comigo ao colo. Devo ter dias. Ela está magra, muito magra e jovem, muito jovem. 19 anos acabadinhos de fazer.  Não parece feliz.
A foto faz-me lembrar uma cena de um filme mudo porque embora seja a cores, sempre me transmitiu silêncio. Sempre.

Fui durante muitos anos uma filha que olhava para a mãe com indiferença. Não tenho uma única lembrança dela a dar-me um beijo, a dizer "gosto de ti", a demonstrar efusivamente afeto. Na verdade, tenho poucas ou quase nenhumas lembranças da minha infância. Tenho na minha cabeça episódios e agora não sei se aconteceram ou se com o passar dos tempos os tenha inventado, deturpado ou efetivamente vividos.

[ Um deles está cá dentro em loop: ela e eu em casa e nenhuma se lembra que faço anos. Fui para a escola mas a meio caminho, lembrando-me que dia era, regressei para lhe dizer. Cheguei a casa e quando lhe disse que fazia anos, ela disse "pois é " ou "parabéns", não sei mas para mim soou a um "pois é ". Fui para a escola assim com um "pois é". No momento em que lhe digo que faço anos, ela está no cimo de um escadote a mexer no relógio que estava por cima da porta - relógio esse que lhe tinha oferecido por 60 francos no dia da mãe e que ainda sobrevive. 
Hoje em dia, não tenho a certeza se ela estava efetivamente no cimo do escadote ou se foi a minha cabeça que a colocou num patamar acima. Há momentos em que acho que inventei essa história. Foi mesmo assim? Duvido por  ezes das minhas lembranças. ]

Sempre houve uma ausência de afetos. Pelo menos, cresci a acreditar nisso. Houve mesmo?
Nunca duvidei que ela gostasse de mim. Ou duvidei? Pensei nalgum momento nisso? 

Na terapia, a mãe veio muito à baila. Nunca a (re)construí, nunca houve tempo para a aceitar como é. Pelo contrário, aquando da terapia, desenvolvi um certo rancor, uma perceção clara do mal que a falta de afetos (ou de falta de memória de momentos felizes) me fez. Durante todos esse tempo, procurei inconscientemente uma mãe nas várias mulheres mais velhas que me rodeavam. A minha sogra foi a que andou mais perto. Durante esse tempo, a presença da minha mãe
incomdava-me muito. Despertava dor, raiva até e um mal-estar que não sei explicar. Quase que consigo sentir esse sentimento quando me lembro desses momentos. 

Há uns tempos para cá, olho para ela de uma outra forma. Olho para ela com a incerteza das minhas memórias. Olho para ela percebendo que teve um vida lixada. Olho para ela acreditando que deu o seu melhor.
Foi uma jovem que até aos 18 anos viu o pai ter várias amantes em casa e tratar mal a mãe.
Foi uma jovem que casou com 18 anos e que foi mãe com 19. 
Era uma jovem francófona que casou com um emigrante português que não dizia uma única palavra em francês.  
Era um jovem mulher apaixonada pela leitura mas que ouviu muito cedo uma frase que eu também ouvi em miúda "não leias que te faz mal à cabeça."
Era um mulher que adorava ir ao cinema (e que sabia e sabe tudo sobre o cinema americanos dos anos 50 e 60) mas que só foi uma vez desde o dia do seu casamento.

[Uma vez, ainda longe de pensar em ter filhos mas ja casada com o pai cá de casa, comuniquei-lhe que tinha uma má notícia para lhe dar. Ela, sem ouvir o que tinha para lhe dizer,  saiu -se com "que horror! Estás grávida!"]

Nós que somos mães sabemos que os nossos filhos são os nossos tudo. Sei que também o fui para ela. Cada um, depois, gere as suas vivências, as suas experiencias e os seus afetos da melhor forma que sabe. Assim fez e assim faço também.  
Algures pelo meio, perdeu-se, viveu no seu mundo, como as personagens do João Tordo. Ou não e eu assento a minha mãe numa construção que a minha imaginação criou. 
É estranho.
De qualquer forma não interessa. Aprendi, agora, a aceitar a mãe que tenho. Vivo mais tranquila. Falta-me só poder abraçá-la tranquilamente, sem um je ne sais quoi e dizer-lhe "gosto muito de ti".




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