quarta-feira, 23 de maio de 2018

25 anos

Faz hoje 25 anos que deixámos a França.

Quando cá chegámos, fomos para a terra. O meu pai foi falar com os seus contactos para que eu pudesse frequentar a escola de lá com horário especial: assistir a todas as aulas de português, do 5° ao 9°ano, e às aulas de matemática do 9°. Objetivo: aprender a falar em português, que o meu era muito muito limitado, e ver se alguém dava a volta à minha matemática que ja era um X gigante. Tá bem, tá!
Os meus pais foram depois para Lisboa e deixaram-me sozinha com os meus avós. Levaram o meu mano porque era pequeno (7 anos) e porque não queriam que falássemos francês um com o outro. Havia uma nova língua a abraçar. Ponto final.
Comecei as aulas já na reta final do ano letivo e fiquei depois na terra até setembro.
Lembro-me de estar nervosa, de ir para a escola a pé, com a Sónia e a Carolina. (Lembras-te S.?). 
Lembro-me de ser a sensação do sítio, tipo freak show,  porque havia alguém novo. Durou pouco tempo, óbvio. Era uma pessoa pouco interessante, que dava pouco nas vistas e que falava pouco. Conheci mil pessoas em poucos dias e quase que não me lembro de ninguém. Sabem quantas vezes me pediram para falar em francês? Demasiadas. Toda eu revirava olhos interiormente quando ouvia "diz lá qualquer coisa em francês" ou melhor "em franciu". 
Lembro-me de uma aula com o 5°ano - tinha 15! - em que se lia um texto sobre o Zezinho ser do Benfica e a professora pedir-me para ler em voz alta. Lembro-me que a Tella adolescente, exposta e insegura, tremeu por dentro e ficou cheia de calores. 
Lembro -me de me baldar às aulas pela primeira vez na vida, mas sempre com medo de ser apanhada.
Lembro-me de perceber muito muito rapidamente que a Escola era uma balda comparativamente com o sistema francês, muito mais rígido e exigente e que ia ser canja.
Lembro-me que toda a gente falava da novela da altura: Pedra sobre Pedra. O meu avô via e eu sentava-me ao lado dele a ver sem perceber uma única palavra. O português do Brasil era incompreensível. Ao fim de algum tempo, já eu percebia quase tudo e já estava apaixonada pelo Jorge Tadeu.
Lembro-me de estar também apaixonada pelo L., com quem tinha curtido no verão anterior e que nem olhava para mim agora. Fez crescer ainda mais o patinho feio que havia em mim. Foi um sofrimento grande, que se juntou ao sofrimento de ter deixado os meus amigos, o meu namoradinho de lá, o meu pais e a minha língua. Lembro-me de ter chorado durante toda a travessia da França, desde a despedida dos meus amigos que foram a casa dizer adeus, todos de bicicleta para seguir o carro, qual cena de filme, até entrar em Espanha com um grito do pai a mandar-me calar. Chorei então em silêncio. Não era saudade, agora sei que nunca tive saudades da França - nunca tinha sido francesa -  era medo. A Tella dos 15 anos era muito insegura e a saída da sua zona de conforto foi uma coisa que deixou marcas, que a tornou ainda mais fechada e com receio de tudo. Também sei que o período em que estive na terra foi uma ajuda para gostar de Portugal - nunca tinha sido portuguesa - e para gostar muito da minha aldeia. Foi um tempo bom, que recordo com saudade e ternura. 
Foi nesse período, sozinha na terra, que a Carolina e eu seguimos um rapaz que passou por nós por trás da capela. Seguimo-lo porque era giro, porque  éramos tolas adolescentes de 15 anos e porque não sabíamos quem era. 
Sabem quem era?
O pai cá de casa. 

Sem comentários: