quinta-feira, 22 de junho de 2017

Tão fácil chegar, tão difícil partir

Quem circula na EN 236-1, lê, à saída do Concelho de Castanheira de Pêra, a seguinte mensagem: "Tão fácil chegar, tão difícil partir". Esta é a mais pura das verdades, que o diga o meu Pedro que chora quando saímos de lá. Da estrada EN 236-1, basta saber isso. Basta recordar isso e mais nada. 
O meu pai e os meus sogros nasceram em pequenas aldeias no Concelho de Castanheira de Pêra. Toda a minha vida passei lá férias. O pai cá de casa também. Os meus filhos passam lá as férias desde que nasceram, claro. Não tendo nascido em Castanheira, somos de lá. É, sem sombra de dúvidas, a nossa terra e com muito orgulho, diga-se. Sinto-a. Não sei explicar. O meu ADN castanheirense fala mais alto do que outro qualquer! O ADN do pai então nem se fala. Conhece toda a gente, toda. Cumprimenta toda a gente. Toda. 

Como é do conhecimento de todos, a nossa terra ardeu. Quem lá está diz que está um caos: cenário cinzento, ainda com fumo, sem luz ou comunicações e que viveram dias horríveis. 
Assistimos no fim de semana ao inferno, de longe, agarrados aos telemóveis, através dos grupos do FB do pessoal da terra. Tentámos saber pelos nossos, num momento em que não havia comunicações, excepto com a tia, que por milagre dos milagres, tinha telefone fixo em casa. O horror era relatado por ela, assustada mas que não quis ser evacuada. "ó tia, vá para a vila, saia da sua casa!". Não foi. Ficou em casa. 
Ler o desespero dos amigos e conhecidos a perguntar pela avó de 90 anos, pelo tio de 70 ou pelos pais. As casas não interessavam, queríamos saber das pessoas. No nosso caso , o primo direito do pai cá de casa. "O Pedro? Ninguém viu o Pedro?" (só soubemos que o Pedro estava bem às 3h00 da manhã de domingo para segunda). 
Vivemos momentos de aflição, sem saber de nada. A televisão prestou um péssimo serviço, pois nunca mas nunca mencionou onde estava o incêndio, que aldeias estavam a ser evacuadas, quando foram evacuadas ou quando deixaram de ser evacuadas por causa de um outro incêndio. A estrada EN 236-1 e os carros destruídos passavam em loop no nosso ecrã, assim como as palavras "incêndio de Pedrogão" quando o incêndio já nem lavrava nesse Concelho mas sim no de Figueiró dos Vinhos e de Castanheira de Pêra.  
Nem imagino o inferno vivido pelas pessoas que lá estiveram, que perderam tudo, inclusivamente a vida.
A Castanheira ficou sozinha e isolada, mas isso já são outros 31.  

No próximo fim de semana, tínhamos combinado lá ir. Mas como ir a um sítio que está de luto? Como estar num sítio com tamanha dor?

1 comentário:

Raquel Ribeiro disse...

Acompanhei tudo pela televisão... senti o sofrimento das pessoas, lembrei-me de ti...
É muito triste tudo o que aconteceu!
Ajudei da forma que posso, com contribuições aos bombeiros e à população afetada.
Só posso imaginar o "vazio" que sentes, mas tal como li no outdoor partilhado no facebook, também Castanheiro de Pera vai renascer!

bjs