Dia 8 de Março

A minha Aida dizia-me muitas vezes "quem me der ter 20 anos, saber o que sei hoje e viver agora neste mundo". 
Sempre gostei de ouvir as histórias que tinha para contar. Ela contava muitas.

Num baile da festa, um homem "mau" (ela dizia o nome dele e com quem tinha casado e acrescentava depois "o filho da mãe"), pediu para dançar com ela. Recusou. Explicava-me sempre que era uma vergonha para o homem uma mulher recusar. Ela recusou. Então, quando ela ia a passar, ele fez-lhe uma rasteira e ela caiu de cara no chão.
"Era assim". Ria-se a contar a história. 

Quando me casei, veio ter comigo ao meu quarto. Eu estava com a minha tia. Disse:
-Tella, na vida e na cama, vais sempre ficar por baixo.  Ele fala e tu calas-te. 

"Só tínhamos um carapau para comer. Dei um lombo ao teu pai, o outro à tia. Dei a cabeça ao avô. Eu comia só a sopa com um pouco de broa. O avô chegou, viu que só tinha a cabeça.  Ficou irritado. Agarrou então no prato dele e atirou-o contra a parede." Ele saiu porta fora. A chorar, a Aida foi limpar a cabeça e deixou-o no prato dele. 
Ela não comeu a parte dele. 

Sobre a Arminda, a minha bisavó, dizia coisas também. "A minha sogra, coitada, levava bancada todos os dias. Um dia, o meu sogro, deus tenha a sua alma [ela dizia sempre isso dele], partiu-lhe o braço e ela ficou para sempre com o braço torto. Teve azar, coitada. Era tão boa mulher."

"Na cama - dizia a rir, meio envergonhada meio malandra - aquilo não sabia a nada. Às vezes até irritava. Mal entrava, saía logo."

Dizia sempre "quem me der ter 20 anos, saber o que sei hoje e viver agora neste mundo". 
Depois do 25 de abril, dizia ela, as mulheres podem fazer tudo

Podemos, avó, mas há quem queira voltar a esse tempo. 
Voltar ao tempo em que comíamos só sopa.
Voltar ao tempo em que comíamos e calávamo-nos.
Voltar ao tempo em que dançavamos quando nos mandavam. 

Hoje, e sempre, é bom relembrar as tuas histórias. 


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