sábado, 16 de dezembro de 2017

Do amor

Fará uma semana amanhã que nos juntámos todos em torno de ti. Almoçámos todos juntos, como todos os anos, sendo esse o meu primeiro Natal do ano. Disse-te, como te digo sempre, que chegarás aos 100 anos. Já é um clássico nosso. Tu ris sempre, dizes que só Deus sabe e acrescento "chegas, chegas Aida".
Esta semana, tiveste um AVC e tudo cá dentro se alterou. Nunca pensei que tu, avó, pudesses ter um AVC. Ainda no domingo me asseguraste que estavas bem e que não te doía nada. Nada. Fizemos um pacto, como sempre, que estavas proibida de ficar velha para que nada te acontecesse. E agora estás numa cama num hospital, com fralda e amarrada porque queres arrancar os fios todos. 
Tudo me aflige agora avó.  Estás lá, sozinha e com medo, sem saber o que te está a acontecer e isso aflige-me. "És leve no crer" como sempre dizias e como a tua mãe sempre disse, segundo me contaste mil vezes. Sei-te assustada por causa disso também, por saber que não compreendes muita coisa.
Estás perdida nas tuas memórias. Oscilas entre elas, frases sem nexo e o presente. É normal mas assustador para quem te quer tanto e que está ao teu lado de mão dada (e que mão quente tu tens avó). Percebo que estás a deixar de ser a minha Aida. 
Não te lembraste do meu nome. Disseste "ai, és... tu, rica filha, és a...ai, és tu". É isso avó, sou eu. Bastou-me. Estive contigo 2 horas. Falaste do meu Pedro que dormiu contigo e te puxou o cabelo. Falaste de coisas incompreensíveis, mas que deviam fazer sentido para ti e da tua mãe. Esqueceste de algumas palavras. Quiseste contar-me coisas mas as palavras fugiram -te e fechaste os olhos e disseste "o que fui e o que sou". Dizes coisas sem nexo outra vez.
Então porque quero que continues a ser a minha Aida, digo que ainda vamos dançar juntas e canto "meninas vamos bailar que o vira é coisa boa" e tu acompanhas-me e ris. Riste como as crianças, de uma forma genuína. Emociono-me. Voltas a ser a minha Aida mais uns segundos mas de repente já estás baralhada e sinto-te menos minha, Aida. 

Hoje, fomos todos ter contigo. Saí tarde. Repeti -te mil vezes que gosto muito de ti. Parto do hospital e espero que tu também partas, que feches os olhos para sempre, enquanto ainda há uma luz de Aída nos teus olhos. 
Semeaste muito amor. Podes ir avó. 
É o que desejo para o Natal.

2 comentários:

Raquel Ribeiro disse...

Um beijinho muito grande pra ti e pra tua família! Infelizmente sei bem do que falas...

mãe pimpolha disse...

Sei bem o que isso é, aconteceu o mesmo com a minha avó e foi duro vê-la perder as suas capacidades.
Pouco tempo mais tarde, tinham os meus gémeos 15 anos, fui eu que tive um AVC. andei 4 dias a tentar fazer a minha vida normal, mas as dores eram insuportáveis e só nessa altura tive a brilhante ideia de ir ao hospital para me darem qq coisa forte para as dores. Não estava era à espera que descobrissem o que descobriram, nunca pensei sequer nessa possibilidade, mas já tinha o cérebro completamente empapado em sangue (é uma expressão linda, eu sei).
São porcarias que podem acontecer a qq pessoa, ninguém está à espera delas, mudam por completo a vida das pessoas e de quem as rodeia.
Beijinhos grandes