quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

De 2017, em trimestre.

No primeiro trimestre de 2017, corri com a Carolina como uma louca. Treinámos quilómetros e quilómetros para a meia maratona de Lisboa. Corri tanto que tive uma fascite plantar. Mas mesmo com a lesão, teimei em fazer a prova. Lixei o pé todo. Chorei de dores ao km 18 mas cheguei à meta. Eish, que feito? Não.  Agora, olhando em retrospetiva só me apetece dizer "Eish, que estupidez". A meia maratona deixou-me um sabor agridoce. Tanto treino, tanto sacrifíco, tantos recordes batidos para fazer a prova da ponte em 2h22. Baaah.
O primeiro trimestre do ano foi marcado também pela preocupação. Uma delas foi pela minha gata, que perdeu um rim e que esteve quase a morrer. Tivemos de tomar uma decisão, que não seria óbvia há uns anos, mas que em 2017 nem foi questionada: a Fifi é da família e os 900 e tal euros gastos no veterinário são meramente acessórios. Ela, a gata, é que não o é. O Pedro, creio, foi o primeiro a perceber isso quando me disse que não queria ir à Paris mas que queria a Fifi em casa. 
A outra grande preocupação do primeiro trimestre de 2017 foi a minha sobrinha. Achei que a miúda tinha uma doença muito muito grave e vivi acorrentada a essa crença, sofrendo uma ansiedade brutal. Felizmente, estava errada. Tinha "apenas" uma doença de foro emocional e psicológico. É grave também mas está a ser tratada e está agora nitidamente no bom caminho. No meio desse momento aterrador que vivemos, também senti que o meu irmão cresceu muito. Foi um Pai do caraças, mesmo que ache que tenha falhado. Ainda não percebeu que foi grande, Grande. Em 2017 percebi que os laços que unem os manos são muito fortes. Podemos estar na nossa vidinha, crescidos, mas se houver qualquer coisa, qualquer apelo, corremos um para o outro, como o sentimento de mãe para filho. O amor fraterno é muito animalesco também. 

No segundo trimestre, tive de fazer vários tratamentos ao pé, tudo sem grande resultado. Era horrível andar, poisar o pé no chão ao acordar e impossível correr. Comecei a engordar e resolvi ir ao ginásio pela primeira vez na vida. Fui todos os dias. O meu corpo mudou e tonificou-se como nunca. Quando quero, sou muito determinada e levei o ginásio muito a sério. Andei por momentos perto do obsessão, reconheço, a querer ser fit até mais não. Tive de ultrapassar os meus preconceitos acerca das mães que deixam os filhos em casa enquanto tiram uma hora por dia para elas. Foi difícil mas consegui perceber que não era nem melhor nem pior mãe por causa disso. 
No segundo trimestre, fiz 39 anos mas para todos os efeitos e em todas as conversas, assumi que tinha 40. Em 2017, quis ter 40 anos. Anseio pelos 40 e antecipei-os. Estou farta de ter trintas, de ainda ser vista como uma miúda. Quero ter 40 porque os 40 garantem-me, psicologicamente, mais confiança, mais certezas. Na verdade é triste que precise de um número para sentir que tenho autoridade ou qualquer coisa assim do género com quem quer que seja. Ou talvez queira apenas sentir aquela cena da mulher madura, cheia de si e estilosa com a sua madeixa branca. Mas ui, há um  caminho tão longo a fazer que resolvi encetá-lo em 2017. Só pode. 

No terceiro trimestre, que correspondem ao verão, voltei aos poucos a correr, pois o meu pé ficou bom graças a um óleo de magnésio. Milagroso. Nestes meses, houve calor e férias. As férias na ilha são sempre maravilhosas. Vi os meus filhos saírem à noite com os amigos enquanto ficávamos em casa à espera deles, por vezes até a 1h da manhã. Cresceram tanto naqueles 15 dias. Tiveram noites de aventura com os amigos, longe dos pais. O pai cá de casa, a Carolina e eu curtimos muito as aventuras deles e com muito riso. Para aguentar a pancada do dia a dia, recorro muito aos dias na ilha, aos mergulhos, à praia, ao pôr do sol mas sobretudo às gargalhadas e às frases ditas.  
No dia 5 de agosto, saímos da ilha por 48 horas, contrariados, para casar o meu primo em Lisboa. Foi para mim um grande frete sair da Armona mas saí porque o meu primo merece. Foi nesse dia que tive um apagão pela primeira vez na minha vida. Bebi apenas 2 copos de moscatel em jejum e pronto, morri. Estive apagada no carro o casamento inteiro. Dizem que foi um casamento muito giro e divertido. Acredito. Mas porra, saí da ilha para quê senhoras? Para quê?!
O que marca mesmo mesmo o 3° trimestre de 2017 foi a minha terra por duas razões completamente diferentes: os incêndios e a nossa decisão em organizar a festa da aldeia em 3 semanas, já depois dos incêndios. Em nome da tradição, em nome da terra, em nome dos nossos avós e dos meus filhos, em nome de tudo o que tinha ocorrido, decidimos avançar. Ainda hoje tenho difucldades em acreditar no nossos feito, no mega sucesso e no trabalho que tivemos. Foi difícil. Foi neste mês que olhei outra vez para o pai cá de casa e lhe disse "faz-me um filho". Apaixonei-me por ele mil vezes nesses dias.  Ele é capaz de tudo. Que força. Que orgulho.  Hei-de lembrar-me sempre do rancho estar a atuar, de olhar em redor, cruzar os meus olhos com os dele e de começarmos a chorar.  Depois fui chorar com o V e a M. e os voluntários loucos que nos ajudaram. Era para não haver nenhuma festa, era só para ser um encontro de amigos, um sítio onde só iríamos vender minis e acabámos por vender 1000 litros de imperiais. Foi de arromba.

O último trimestre de 2017 foi quase como um retrocesso.  Muito trabalho, mais responsabilidade e menos tempo para mim. O Tiago entrou no 5°ano e passou por várias fases: deslumbramento, medo, desorganização e verbalizou "ajuda -me mamã que não consigo!". O Pedro foi para o 2 ano e percebi que tem muitas dificuldades de leitura e de escrita. Sei que o meu Pedro é diferente e a professora dele não percebeu ainda. Decidi então tomar conta dele também nas coisas da escola. De repente, eu que ia ao ginásio todos os dias deixei de ir. Impossível ter uma hora para mim. Entre testes dia sim dia não do Tiago ou do Pedro, TPC, estudos e as cenas de casa, perdi -me e a minha cabeça começou a hiperventilar... Priorizar os filhos não é um sacrifício mas abdicar de tempo para mim, é. Confesso que me custa ter tido tempo para mim e deixar de o ter por causa da escola . A raiva acumulada do dia a dia ou o stress, não sei, foram libertados nas corridas e provas /trails que fiz com a Carolina. Bolas, cada um mais difícil que o outro mas foi a melhor terapia. Muito me rio nestes momentos. Muito mesmo. E aí tenho tempo para estar comigo, de me superar e de me organizar. 

Acabei o ano hiper dramática com a minha avó que teve um AVC. Já está em casa, ainda com uma luz de Aída nos olhos, que vai e vem. Todos dizem que vai recuperar e eu digo que sim para não ser a pessimista. Mas não acredito.  Não me reconheceu. Fiquei super super triste embora não o dissesse a ninguém. A minha avó sempre soube quem eu era...
Em 2017, li 13 livros. Uff, pelo menos um por mês. Vi meia dúzia de filmes e só me recordo de dois: o Manchester by te Sea e outro, do miudo gay e negro. Vi muitas séries como sempre. Obrigada netflix, internet e tv on streaming. Corri apenas 650 km quando queria passar a barreira dos 1000. Sinto que falhei. É parvo mas era a única meta que me tinha posto no dia 1 de janeiro de 2017 e não cheguei lá. 
Em 2017, ouvi coisas que não gostei, que me fizeram chorar. Desiludi-me com vários pessoas (ainda me desiludo ...) mas tive a certeza que há pessoas com as quais posso contar, que valem ouro. O meu grupo de afetos é restrito mas gosto que seja assim. 
Dei alguns abraços à minha mãe. Olho para ela e tenho vontade de a proteger, de recomeçar do 0 sabendo que já perdemos muita coisa e que é impossível. Se pudéssemos recomeçar relações sem ideias feitas uns dos outros e sabendo o que sabemos hoje, seria tão bom. 
Em 2017, senti que estou a perder o meu filho mais velho. Já não é meu. Quer ser dos amigos, do futsal, do mundo. É bom e é mau. Às vezes fala comiga como se eu já fosse um caso encerrado, com um certo desdém tipo "oh mãe tu não sabes nada!". Que nervos. Um dos piores momentos do ano para mim foi o seu dia de aniversário.  Foi um dia triste para todos cá em casa e temo que isso molde a sua visão de filho para com os seus pais.  [ Às vezes acho que dramatizo demasiado. Espero que sim.] 
Também acho que o meu Pedro não esteja bem, que não se sinta encaixado de forma correta, que as suas dificuldades na escola sejam o reflexo de qualquer coisa emocional e que aquele feitio não seja mais do que uma chamada de atenção. [ Às vezes acho que dramatizo demasiado. Espero que sim.] Em 2017, senti que não fui 100% boa mãe  (Quem o é ? - perguntar-me-ão vocês, eu sei...) porque falharam cenas, pormenores que consigo vislumbrar por segundos mas que me escapam no segundo seguinte. Em 2017, como qualquer mãe que se preze (ou não, ou não) gritei muito, stressei muito, corri (não no sentido literal agora) de um lado para o outro tipo barata tonta. Mas aguentei a pancada. Dramatizei muito também e estou cada vez mais hipocondríaca.
Acabo 2017 a acreditar que estou a entrar numa menopausa precoce. Os calores súbitos, os suores noturnos e a falha de período que tive há uns meses e que me fizeram crer que estava grávida apontam para tal. Só me faltava essa. Ter 39 anos, dizer a todos que tenho 40 mas o meu corpo pensar que já tem 47/48. 
Que venha 2018 e que no final do ano, possa olhar em redor e ver sempre amor e sorrisos. 

2 comentários:

Raquel Ribeiro disse...

Foi um ano e peras...
Para mim foi o ano em que finalmente me dispus a perder o peso em excesso que tinha! consegui um IMC normal e estou muito feliz! :-)
Pouco mais mudou...
beijinhos e votos de um feliz 2018

Carolina Gonçalves disse...

está demais!!! adorei! já li e reli!