Ontem fui ao Fundo do Lugar ver a casa da minha avó, vendida há quase um ano. Contornei a casa, pelo lado dos campos outrora cultivados, pronta a galgar o murro baixo e o arame que o meu avô lá colocou há mais de 30 anos talvez. (Terá sido mesmo ele a colocar o arame?) Queria entrar no espaço. Foram as câmaras a apontar para o sítio onde estava - câmaras no Fundo do Lugar! - que me impediram in extremis de o fazer. Realmente teria sido parvo. Perguntava o pai cá de casa "querias soltar aquilo para quê?" Não sei. Se calhar,  queria ceder a um impuslo primitivo, como um animal que marca território. Apoderar-me do espaço só mais uma vez. 

Num dos pátios interiores, um móvel da cozinha de cima desmanchado - consegui ver através de uma foto tirada com o meu telemóvel, erguendo-me ligeiramente junto ao portão de baixo. 

O portão principal ainda tem as inicias AR -1972 (Anibal Rodrigues, meu avô).

A venda da casa despertou lágrimas e zangas na família. Eu não senti nada disso. Costumo dizer que a Aida é que era a minha casa. A venda foi-me indiferente. Fui talvez também egoísta, porque tenho casa na aldeia. 

Ontem, ali, senti a minha avó. Vi a minha infância num instante: a tangerineira onde ia de manhã buscar fruta para comer, o sítio onde, em miúda,  íamos fazer as necessidades, porque ainda não havia wc e água canalizada, as galinhas, o forno, a avó de bata encostada ao muro da casa de banho de fora, nós no pátio, as escadas onde o meu mano adorava fazer xixi em pequeno. Desfilaram mil memórias. Foi muito triste. 

Ao subir a ladeira, encontrei a vizinha de sempre, mulher esquizofrénica de 70 anos agora, a mal-amada da aldeia, aquela de quem todos falavam mal, "a doida", "a maluca", a alcunha da família sempre dita com esgar de lado e que não reproduzirei neste texto. Chamei-a pelo nome. Não me reconheceu. Apresentei-me da única forma que o sei fazer na aldeia: sou a Tella, neta da ti"Aida. Dei-lhe um abraço pelos tempos idos também, onde eu, imitando os adultos, olhava para ela com desdém, longe de saber tudo o que a rodeava e sem um pingo de empatia por ela. 




Comentários

Carolina disse…
epá, que bonito! que bela casa! a vista daquelas janelas de cima deve ser arrepiante, sem falar na luz que deve apanhar. (tenho um comentário mais privado, mas farei por mensagem. lol)