As coisas que mais prazer me deram na vida - António Lobo Antunes
Uma colega partilhou esta maravilhosa crónica do Lobo Antunes: "As coisas que mais prazer me deram na vida".
Eis a minha versão, o meu pastiche:
Ouvir os sinos da capela da senhora da Guia, mergulhar nas águas geladas do Corga, o cheiro da ilha, subir a correr ao Coentral, o coração descompassado quando via o Gaetan, passar a mão no musgo, passear com a avó Monteira e a cadela Dor e apanhar paus, ouvir as histórias dela sobre a família de Portugal, jogar às orelhas com o avô Monteiro, ouvir a Aida dizer "mãos frias, coração quente", sentir os meus filhos dentro de mim, cuidar do meu irmão, em tempos, como se eu fosse mãe dele, recordar o Pedro a dizer amo-te-te, ouvir as músicas com a minha madrinha num gira-discos no quarto dela, deixar a areia fina escorregar dos dedos, dar um mergulho no mar e deitar-me ao sol, o meu pai a dizer-me, apenas uma vez, "amo-te", correr com a Carolina, a minha mãe a dizer "ó minha filha" quando me atende o telemóvel numa constante surpresa por estarmos a falar, os sucessivos calendários de Advento, olhar para os olhos do Miguel e ver uma vida juntos, parir os meus filhos, ter os gatos ao colo num dia de frio, descer a avenida nos 50 anos do 25 de abril, fazer a minha árvore genealógica prestando uma espécie de homenagem às mulheres invisíveis de quem venho, ver o Pedro a dançar a carvalhesa, dormitar na praia, chegar ao sábado da festa, ouvir os grilos a cantarem quando o sol se põe, ouvir o fecho de uma tenda, o riso contagiante do Tiago, os meus dois filhos, descer uma ladeira de bicicleta e sentir o vento na cara, cheirar os meus recém-nascidos, brincar com a minha Barbie, beber um chá quente debaixo de uma manta, estar em frente da lareira, o cheiro a pão acabado de fazer no Natal, ver defesas incríveis do Pedro, recordar o Tiago a dizer kéké, escrever no blog, dar aulas ao 5º ano, fechar a praia, desenhar cubos encaixados uns nos outros, saltar para o colo do Miguel quando o Eder marcou o golo, ter o Pedro num sling, ouvir diariamente o Tiago agradecer o pequeno almoço, estarmos na casa da Aroeira durante o segundo confinamento, perder-me no olhar terno do Miguel, a casa da Aroeira, ouvir o Miguel tocar viola nas noites de verão no terraço, a bolha a 5 na ilha, ouvir as confidências da Aida, a casa da terra sem obras só a 4, as imperiais à sexta no restaurante em Belém, dançar até não poder mais, voltar a ver fogo de artifício numa festa da aldeia, como quando éramos miúdos, os 100 escudos de Fernando Pessoa oferecidos no domingo da festa para comprar rifas, ouvir as conversas do clã Sarreiro sentado num banco de pedra, no Quinteiro, nas noites quentes de verão, o beijo roubado ao Marco quando tinha 11 ou 12 anos, comer uma sardinhada no terraço da casa da terra, acompanhado de um vinho branco muito fresco e de uma fatia de melão do Rui, agarrar no dedo da minha sobrinha quando nasceu, o riso sincero entre dois amigos, os beijos longos no banco da Amadora, jogar basquete e acreditar que era a melhor, uma conversa ao telefone, as viagens a 4, ler um bom livro e transportar personagens comigo.
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