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Dia 8 de Março

A minha Aida dizia-me muitas vezes " quem me der ter 20 anos, saber o que sei hoje e viver agora neste mundo".   Sempre gostei de ouvir as histórias que tinha para contar. Ela contava muitas. Num baile da festa, um homem "mau" (ela dizia o nome dele e com quem tinha casado e acrescentava depois "o filho da mãe"), pediu para dançar com ela. Recusou. Explicava-me sempre que era uma vergonha para o homem uma mulher recusar. Ela recusou. Então, quando ela ia a passar, ele fez-lhe uma rasteira e ela caiu de cara no chão. "Era assim". Ria-se a contar a história.  Quando me casei, veio ter comigo ao meu quarto. Eu estava com a minha tia. Disse: -Tella, na vida e na cama, vais sempre ficar por baixo.  Ele fala e tu calas-te.  " Só tínhamos um carapau para comer. Dei um lombo ao teu pai, o outro à tia. Dei a cabeça ao avô. Eu comia só a sopa com um pouco de broa. O avô chegou, viu que só tinha a cabeça.  Ficou irritado. Agarrou então no prato dele e ...

As coisas que mais prazer me deram na vida - António Lobo Antunes

Uma colega partilhou esta maravilhosa crónica do Lobo Antunes : "As coisas que mais prazer me deram na vida". Eis a minha versão, o meu pastiche: Ouvir os sinos da capela da senhora da Guia, mergulhar nas águas geladas do Corga, o cheiro da ilha, subir a correr ao Coentral, o coração descompassado quando via o Gaetan, passar a mão no musgo, passear com a avó Monteira e a cadela Dor e apanhar paus, ouvir as histórias dela sobre a família de Portugal, jogar às orelhas com o avô Monteiro, ouvir a Aida dizer "mãos frias, coração quente", sentir os meus filhos dentro de mim, cuidar do meu irmão, em tempos, como se eu fosse mãe dele, recordar o Pedro a dizer amo-te-te,  ouvir as músicas com a minha madrinha num gira-discos no quarto dela, deixar a areia fina escorregar dos dedos, dar um mergulho no mar e deitar-me ao sol, o meu pai a dizer-me, apenas uma vez, "amo-te", correr com a Carolina, a minha mãe a dizer "ó minha filha" quando me atende o telemó...

(Meno)pausa na forma de estar?

Há uns dias, alguém fez uma cena infeliz. Não vale a pena estar aqui a explicar, mas foi foleiro e não gostei nada. O meu olhar de desdém foi revelador. Não ia dizer nada. A vida segue. A pessoa é parva, coitada, e eu sigo a minha vida. Não há necessidade de drama.  No dia seguinte, veio ter comigo para falar o sucedido, a querer explicar o porquê da cena.  Quis falar comigo sobre o assunto em pé, na sala dos professores. Ela começou "bla bla bla" e lá explicou algo sem sentido. Interrompi-a, já estava em loop, para lhe dizer "não gostei nada da tua atitude. Foste infeliz e, na verdade, já que puxas o assunto, tu é que tiveste mal porque bla bla bla". Juro-vos que acho que foi a primeira vez que disse, no trabalho, a alguém que não tinha gostado da atitude dela para comigo. Sou de comer e calar e, se necessário, cortar para sempre a pessoa, à la ressabiada, admito.  Entretanto, apercebi-me que as conversas dos restantes colegas começaram a ficar suspensas para ouvir...

A voz de Hind Rajab

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O filme saiu  em fevereiro, mas passou-me ao lado.  Vi-o somente ontem à noite.  É um filme tunisino que documenta de forma comovente, claustrofóbica e dolorosa, a chamada telefónica entre uma criança palestinana, presa num carro, num cenário de guerra na faixa de Gaza, e a Cruz Vermela lá do sítio. O objetivo é conseguirem uma linha verde para a irem resgatar em segurança.  O filme utiliza gravações reais da menina. Ficamos, também nós,  completamente perdidos naquele caos emocional e humano.  Ainda estou devastada com o que vi. É duro, mas é obrigatório ver. 

Livros de fevereiro

 3. Amor e Enganos , de Julia Quinn A Netflix estreou a quarta temporada da série Bridgerton. Vi tudo de seguida, que uma pessoa também gosta de ver coisas simples e que enche a vista, if you know what i mean. Disponibilizaram apenas 4 episódios. Não aguentei a espera e fui ler o livro para saber o que iria acontecer às personagens.. Li-o em dois ou três dias. São frases curtas com sujeito, verbo e complemento direto; sujeito, verbo e complemento direto... Tão básico que aborrece. Dei-lhe 2 estrelas e tive vergonha de o ter adicionado no meu Goodreads... 4. Um livro cujo nome desconheço, mas vou ver no meu kobo e já aqui escrevo...  Este nem o adicionei ao Goodreads por vergonha!  Crença , de Penélope Douglas Vou contextualizar. Uma colega do secundário, que não vejo desde 1997, publicou um post a falar de literatura smut e da importância que esta teve para que ela voltasse a ler. Sugeriu este livro. Fiquei curiosa e li-o sem saber ao que ia. Meu deus. É uma literatura po...

Desafio

A minha escola desafiou alunos e professores a escrever uma "Carta a um jovem leitor" acerca do nosso despertar para a leitura.  Escrever aqui, caras leitoras de blogs, é uma coisa. Escrever uma carta que será lida, apresentada e afixada na comunidade escolar é toda uma outra coisa... que me deixa muito insegura.  Carta feita e enviada. 

4.1

Estou a escrever o sumário no PC numa sala do 2°andar. Sinto uma vibração e penso: - Olha, o metro a passar.  [Não há metro num raio de 1/2 km.] Uma aluna diz: -Sentiram o terramoto? Sim, nem sempre percebo as coisas à primeira! 
Não sei se é do cansaço, do excesso de trabalho, de ter pouco tempo livre. Não sei se é da perimenopausa, das muitas turmas difíceis, da chuva, do céu cinzento. Não sei se é de não ir ao ginásio desde novembro, do mês de fevereiro que se parece com janeiro ou  da minha verdadeira natureza. Mas a verdade é que me tenho tornado numa pessoa mais azedo. Mais sisuda e seca. Dou por mim, por exemplo, a pensar "que mula!" depois de falar com muitas pessoas. [E no outro dia, a contar um episódio a uma colega, acabei a história dizendo "aquele X é mesmo mula!". A colega ficou a olhar para mim, rindo-se constrangida, como quem diz "menos, Tella" e o que é que eu pensei? Isso.] Não gosto da pessoa que ando a ser. Estes dias de descanso, intercalados com a correção dos testes, são capazes de me fazer bem.  Urge mudar o chip, Tella.

8 ou 80

Preciso de muito e de pouco.  Preciso de sol na cara, apesar de saber que faz rugas.  Preciso de uma casa em Lisboa com melhores condições no inverno, apesar de saber que não tenho dinheiro para ela. 

Medo

A proposito da música  Medo do Medo   de Capicua, fiquei a pensar nos meus próprios medos. Vi um rol deles: desde aqueles que despareceram, como os dois buracos das portadas de madeira do meu quarto que me faziam lembrar os olhos de um monstro e que me obrigavam a dormir com o rosto tapado pelo cobertor, ao mais recente: o medo de ver um filho fracassar porque decide não seguir o caminho esperado (ou normal?).  Sei que pode parecer um medo que assenta numa visão negativa desse filho, mas não creio. Nasce do desejo de proteger, de evitar a desilusão dele, ou pior, que se arrependa no futuro e que (me) diga "e não fizeste nada para me impedir?" Quando ele me diz que ser outra coisa, algo difícil de alcançar, e que pode fechar várias portas "normais" por querer ser outra coisa, eu entro em pânico. Não há caminhos certos para nada, eu sei, mas há trajetos que me parecem surreais e que podem levar a nulle part.  É escusado dizer aqueles clichés todos, do género " el...

Apontamento

Vi o documentário Orwell:2+2=5 .  Quando percebemos que vivemos praticamente na distopia que Orwell escreveu em 1948 e que as reflexões dele, nos diários, são o que sentimos hoje em 2026, não podemos deixar de pensar no génio que ele era e na sociedade que somos e seremos. Que murro no estômago! Ide ver, senhoras, ide ver. Imperdível.