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A mostrar mensagens de maio, 2026

Livro do mês de maio

Pela primeira vez em anos, desde o tempo em que tive bebés e estava completamente absorvida por eles, chego ao fim do mês sem ter lido um livro. Zero. Nada.  Quer dizer, eu comecei a ler um livro logo no início do maio e até estou a gostar bastante, mas nem a metade cheguei.   Dizem que a culpa nao morre solteira. Acho que a culpa é da vida que se vai metendo e que, por vezes, pesa mais do que o kobo. 

As piores cenas do ginásio

Há muitos adolescentes, que andam em bando, meios desarticulados, meios tontinhos, a correrem de máquinas em máquinas... Há amigos dos meus filhos que são queridos e que me vêm dar beijinho. Please, estou suada. Há amigos dos meus filhos que me veem, mas que nem olham para mim. Seguem em frente, olhar fixo numa coisa mais interessante. Deve ser constrangimento, 'tá bem, tá, ou  talvez uma certa dose de má educação... Em ambos os casos, bastava um aceno.  Há antigos alunos, uns mais recentes e outros mais antigos ( "peço desculpa, é a professora Tella, não é? Sou o T. do 7°A de 2005/2006 !") E eu ali, toda suada, desgrenhada, com legins de 3a categora e t-shirt da Primark ou algo parecido... A dignidade vai-se um pouco embora, confesso.  Tirando as pessoas, sempre elas a incomodarem, voltei a gostar muito de ir ao ginásio.  

48 - parte 2

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Como sempre, no dia de hoje, sou mimada por muitos. Fazem-me sentir importante. Amanhã,  serei só mais uma pessoa, mas hoje, pfff, hoje, putain, sou cool e importo para muita gente.  Entre abraços sentidos de alunos, oferta de ramos de flores do meu 9°A do ano passado que se voltou a juntar, num intervalo, para me cantar os parabéns no pátio da escola e oferecer as ditas flores, mensagem do Canadá via Carolina - a primeira a dar-me os parabéns e a fazer-me rir,  telefonemas do Ricardo, da Sílvia, dos pais, sogros ou da tia, sms da Mirita ou da Catalão e de tantos outros a dizer " és uma miuda com graça ", logo eu, que adoro o Graça, o abraço do Pedro, em frente à sala dos professores, porque acordou num dia não, como todos diga-se, e só se lembrou que eu fazia anos depois de escrever o primeiro sumário. " Mãe,  desculpa, sabes que não funciono de manhã. Gosto de ti .", ao abraço do Tiago depoisdo treino com os putos dele, de mister feito, à conchinha do pai cá de ca...
Ainda ontem tinha a idade dos meus filhos, achava os meus pais chatos ou antiquados e pensava que tinha o mundo todo à minha frente. Acordo e tenho hoje 48 anos.  (Sinto-me entalada: qual é coisa, qual é ela, não sou jovem, nao sou velha? Ya, difícil...)

O início do fim da linha?

Estou no ginásio. Guardo as coisas no meu cacifo. Fecho o cacifo com o cadeado de combinação com três digitos. Vou treinar. Regresso. Fui então incacapz de ver os dígitos do cadeado. Estava tudo desfocada e a iluminação, diga-se, não ajudou. Tentei, tentei, mas nada vi e/ou consegui. Tive então de pedir a uma jovem de 20 anos para o abrir, dizendo-lhe, obviamente os números. Ela parecia este emoji 😅, com uma certa condescendência à mistura, e deve  ter pensado "ao que chegamos com a idade!"

Oui, c'est moi!

Às vezes, quero fazer-me outra. De outro lugar, de outra raiz, de outra estrutura, de outra condição, de outro meio, de outro vernissage, de outra envergadura.  Às vezes, consigo, mas grande parte das vezes, não consigo, por mais que tente. Há sempre qualquer coisa a desmascarar-me...Um gesto, uma palavra ou até um silêncio.  Só os mais atentos é que me conseguem ver como sou ou sou muito óbvia?  Há uma espécie de fio invisível que me prende à génese e que me baralha.  Afinal, quem sou eu? (E é impossível não me lembrar da Carolina e da sua máxima "ninguém se conhece ate ao fim da sua morte".) - Tella, quem és tu, na verdade?  Perguntaram-me isso há uns dias no trabalho. Não respondi. E como sempre, quando estou a ser entalada ou numa situação desconfortável,  digo algo com graça (ou não...), aceno e sorrio. Lembrei-me então que sou, sem sombra de dúvidas,  aquela que, ao parir o primeiro filho, saltou um "foda-se" bem alto.  Não se consegue fugir...
Ontem, fui beber um copo com uns conhecidos/amigos  neste sítio . No meio de tanta cara conhecida, vejo de relance três antigos alunos,  homens feitos de 30 e tal anos. Uma hora e tal depois de la estar, os três homens aproximam-se, meio envergonhados, e dizem "desculpe, queríamos dar um beijinho à professora Tella.". Conversámos muito, durante mais de 30 minutos, e ri-me ainda mais. Dizia um deles "bebi mais um copo de vinho para ganhar coragem e vir falar consigo!".  Fui professora deles há 19 anos. Continuaram a tratar-me por stôra. Quando lhes pedi para me tratarem pelo meu nome, chamaram-me professora.  Voltei para casa de coração cheio.