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A mostrar mensagens de 2026

Curtas

- Quando olho para as minhas unhas, revejo as do meu avô do Norte. Quando olho para a curvatura do Pedro, vejo o meu tio João. Deve ser isso a força do gene. Um cliché à sexta: carregamos outros dentro de nós.  - Ando a ler uma crónica do Lobo Antunes por dia. Que delicioso.  - Os meus alunos escreveram "As coisas que mais prazer me dão". Ri-me e emocionei-me com muitos. Moi, la nhónhó, como sempre.  - O Tiago anda a protelar as aulas de código. Inscrito há quase 2 ou 3 meses na escola de condução, só foi a 2 ou 3 aulas. Só o quero com carta de condução para agilizar as idas aos treinos... - Uma aluna disse-me que não tinha tempo para aprender, apenas para decorar. Andamos todos num frenesim, uns a fingirem que ensinam e outros a fingirem que aprendem.  - Fui à consulta anual de ginecologia. Não ia, afinal, desde outubro 2022...Andamos mesmo num frenesim louco e eu à deriva, não? - O Pedro disse que tinha saudades do pai enquanto treinador de GR. Dizia-me ele "com o ...

Dia 8 de Março

A minha Aida dizia-me muitas vezes " quem me dera ter 20 anos, saber o que sei hoje e viver agora neste mundo".   Sempre gostei de ouvir as histórias que tinha para contar. Ela contava muitas. Num baile da festa, um homem "mau" (ela dizia o nome dele e com quem tinha casado e acrescentava depois "o filho da mãe"), pediu para dançar com ela. Recusou. Explicava-me sempre que era uma vergonha para o homem uma mulher recusar. Ela recusou. Então, quando ela ia a passar, ele fez-lhe uma rasteira e ela caiu de cara no chão. "Era assim". Ria-se a contar a história.  Quando me casei, veio ter comigo ao meu quarto. Eu estava com a minha tia. Disse: -Tella, na vida e na cama, vais sempre ficar por baixo.  Ele fala e tu calas-te.  " Só tínhamos um carapau para comer. Dei um lombo ao teu pai, o outro à tia. Dei a cabeça ao avô. Eu comia só a sopa com um pouco de broa. O avô chegou, viu que só tinha a cabeça.  Ficou irritado. Agarrou então no prato dele e...

As coisas que mais prazer me deram na vida - António Lobo Antunes

Uma colega partilhou esta maravilhosa crónica do Lobo Antunes : "As coisas que mais prazer me deram na vida". Eis a minha versão, o meu pastiche: Ouvir os sinos da capela da senhora da Guia, mergulhar nas águas geladas do Corga, o cheiro da ilha, subir a correr ao Coentral, o coração descompassado quando via o Gaetan, passar a mão no musgo, passear com a avó Monteira e a cadela Dor e apanhar paus, ouvir as histórias dela sobre a família de Portugal, jogar às orelhas com o avô Monteiro, ouvir a Aida dizer "mãos frias, coração quente", sentir os meus filhos dentro de mim, cuidar do meu irmão, em tempos, como se eu fosse mãe dele, recordar o Pedro a dizer amo-te-te,  ouvir as músicas com a minha madrinha num gira-discos no quarto dela, deixar a areia fina escorregar dos dedos, dar um mergulho no mar e deitar-me ao sol, o meu pai a dizer-me, apenas uma vez, "amo-te", correr com a Carolina, a minha mãe a dizer "ó minha filha" quando me atende o telemó...

(Meno)pausa na forma de estar?

Há uns dias, alguém fez uma cena infeliz. Não vale a pena estar aqui a explicar, mas foi foleiro e não gostei nada. O meu olhar de desdém foi revelador. Não ia dizer nada. A vida segue. A pessoa é parva, coitada, e eu sigo a minha vida. Não há necessidade de drama.  No dia seguinte, veio ter comigo para falar o sucedido, a querer explicar o porquê da cena.  Quis falar comigo sobre o assunto em pé, na sala dos professores. Ela começou "bla bla bla" e lá explicou algo sem sentido. Interrompi-a, já estava em loop, para lhe dizer "não gostei nada da tua atitude. Foste infeliz e, na verdade, já que puxas o assunto, tu é que tiveste mal porque bla bla bla". Juro-vos que acho que foi a primeira vez que disse, no trabalho, a alguém que não tinha gostado da atitude dela para comigo. Sou de comer e calar e, se necessário, cortar para sempre a pessoa, à la ressabiada, admito.  Entretanto, apercebi-me que as conversas dos restantes colegas começaram a ficar suspensas para ouvir...

A voz de Hind Rajab

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O filme saiu  em fevereiro, mas passou-me ao lado.  Vi-o somente ontem à noite.  É um filme tunisino que documenta de forma comovente, claustrofóbica e dolorosa, a chamada telefónica entre uma criança palestinana, presa num carro, num cenário de guerra na faixa de Gaza, e a Cruz Vermela lá do sítio. O objetivo é conseguirem uma linha verde para a irem resgatar em segurança.  O filme utiliza gravações reais da menina. Ficamos, também nós,  completamente perdidos naquele caos emocional e humano.  Ainda estou devastada com o que vi. É duro, mas é obrigatório ver. 

Livros de fevereiro

 3. Amor e Enganos , de Julia Quinn A Netflix estreou a quarta temporada da série Bridgerton. Vi tudo de seguida, que uma pessoa também gosta de ver coisas simples e que enche a vista, if you know what i mean. Disponibilizaram apenas 4 episódios. Não aguentei a espera e fui ler o livro para saber o que iria acontecer às personagens.. Li-o em dois ou três dias. São frases curtas com sujeito, verbo e complemento direto; sujeito, verbo e complemento direto... Tão básico que aborrece. Dei-lhe 2 estrelas e tive vergonha de o ter adicionado no meu Goodreads... 4. Um livro cujo nome desconheço, mas vou ver no meu kobo e já aqui escrevo...  Este nem o adicionei ao Goodreads por vergonha!  Crença , de Penélope Douglas Vou contextualizar. Uma colega do secundário, que não vejo desde 1997, publicou um post a falar de literatura smut e da importância que esta teve para que ela voltasse a ler. Sugeriu este livro. Fiquei curiosa e li-o sem saber ao que ia. Meu deus. É uma literatura po...

Desafio

A minha escola desafiou alunos e professores a escrever uma "Carta a um jovem leitor" acerca do nosso despertar para a leitura.  Escrever aqui, caras leitoras de blogs, é uma coisa. Escrever uma carta que será lida, apresentada e afixada na comunidade escolar é toda uma outra coisa... que me deixa muito insegura.  Carta feita e enviada. 

4.1

Estou a escrever o sumário no PC numa sala do 2°andar. Sinto uma vibração e penso: - Olha, o metro a passar.  [Não há metro num raio de 1/2 km.] Uma aluna diz: -Sentiram o terramoto? Sim, nem sempre percebo as coisas à primeira! 
Não sei se é do cansaço, do excesso de trabalho, de ter pouco tempo livre. Não sei se é da perimenopausa, das muitas turmas difíceis, da chuva, do céu cinzento. Não sei se é de não ir ao ginásio desde novembro, do mês de fevereiro que se parece com janeiro ou  da minha verdadeira natureza. Mas a verdade é que me tenho tornado numa pessoa mais azedo. Mais sisuda e seca. Dou por mim, por exemplo, a pensar "que mula!" depois de falar com muitas pessoas. [E no outro dia, a contar um episódio a uma colega, acabei a história dizendo "aquele X é mesmo mula!". A colega ficou a olhar para mim, rindo-se constrangida, como quem diz "menos, Tella" e o que é que eu pensei? Isso.] Não gosto da pessoa que ando a ser. Estes dias de descanso, intercalados com a correção dos testes, são capazes de me fazer bem.  Urge mudar o chip, Tella.

8 ou 80

Preciso de muito e de pouco.  Preciso de sol na cara, apesar de saber que faz rugas.  Preciso de uma casa em Lisboa com melhores condições no inverno, apesar de saber que não tenho dinheiro para ela. 

Medo

A proposito da música  Medo do Medo   de Capicua, fiquei a pensar nos meus próprios medos. Vi um rol deles: desde aqueles que despareceram, como os dois buracos das portadas de madeira do meu quarto que me faziam lembrar os olhos de um monstro e que me obrigavam a dormir com o rosto tapado pelo cobertor, ao mais recente: o medo de ver um filho fracassar porque decide não seguir o caminho esperado (ou normal?).  Sei que pode parecer um medo que assenta numa visão negativa desse filho, mas não creio. Nasce do desejo de proteger, de evitar a desilusão dele, ou pior, que se arrependa no futuro e que (me) diga "e não fizeste nada para me impedir?" Quando ele me diz que ser outra coisa, algo difícil de alcançar, e que pode fechar várias portas "normais" por querer ser outra coisa, eu entro em pânico. Não há caminhos certos para nada, eu sei, mas há trajetos que me parecem surreais e que podem levar a nulle part.  É escusado dizer aqueles clichés todos, do género " el...

Apontamento

Vi o documentário Orwell:2+2=5 .  Quando percebemos que vivemos praticamente na distopia que Orwell escreveu em 1948 e que as reflexões dele, nos diários, são o que sentimos hoje em 2026, não podemos deixar de pensar no génio que ele era e na sociedade que somos e seremos. Que murro no estômago! Ide ver, senhoras, ide ver. Imperdível. 

Livros de janeiro

 1. Gente ansiosa - Fredrik Backman O livro começa com um assalto risível e mal conseguido e uma situação de reféns,mas rapidamente nos apercebemos que o assalto é um ponto de partida para uma outra coisa. Vamos conhecendo vários reféns, as suas histórias, fragilidades e defeitos e tudo com humor.  Fui conquistada aos poucos pelo livro. 4 estrelas. [Comecei a ver a série sueca na Netflix, mas desisti depois de ver o 1° episódio.] 2. Somos o esquecimento que seremos - Héctor Abad Faciolince O escritor fala-nos do pai dele, figura incrível que dedicou a sua vida às causas sociais e à família. Decidi ler o livro por causa do título, que achei maravilhoso. 3 estrelas. 

Sub 17 [update]

Hoje começa a 2a parte do campeonato nacional. Das 16 equipas, somente 8 passaram. A equipa do meu Pedro está, para já, nas melhores 8 do país. Ele marcou 2 golos na 1a parte,  o que para um guarda-redes, nesta fase, é muito. Também impediu que muitas bolas entrassem. O colega dele também, verdade seja dita, mas aos meus olhos, o meu esteve melhor, claro.  Depois desta fase, só 4 permanecerão em jogo.  Seguirão para as meias-finais e a final que destacará o campeão nacional. Estou a torcer para que seja o meu filho, como calculam.  Jogará hoje contra o Braga, às 18h. Ao nosso lado, já cá está o selecionador nacional. Espero que o meu filho jogue pelo menos uma parte e que nada passe.  Ser mãe de guarda-redes é super difícil. Respira, Tella, respira. [Update: jogou o tempo todo, as duas partes, e ganharam.]
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Vi a serie documental de que toda a gente fala: 'Mário Soares a duas voltas", disponível na RtpPlay, sobre as eleições presidenciais de 86. Em 1986, vivia em França e tinha 8 anos. Foi por isso uma surpresa para mim conhecer os meandros do momento. Gostei dos pormenores, que nunca foram aborrecidos, as figuras,  as movimentações políticas, o dramatismo da 1a volta, as frases que marcaram alguns momentos e fiquei de boca aberta com a forte mobilização de Portugal. Era sempre um mar de gente a acompanhar Freitas e Soares. Incrível.  E aquele políticos, que classe e que eloquência. (Chegámos a pôr para trás para a ouvir uma segunda vez algumas deixas deles .) Vale muito a pena.

Desabafo

Há dias em que perdes o controlo da tua aula e de um aluno em particular. Hoje foi um desses dias. Terá sido, em 23 anos de docência, a primeira* situação grave que me ocorreu.  Não vou contar a história em si, porque não interessa, mas apenas o que fica durante e depois.  O coração que bate demasiado rápido, a voz que treme, a ausência de discernimento para saber o que fazer, a tua vulnerabilidade perante os outros alunos, a insegurança, sempre ela, que aparece com ainda mais força, a vontade de chorar e o pensamento constante "se calhar, não devia ter ido por aquele caminho" ou pior ainda "podia ter fingido não ter visto". A experiência vale de pouco, certo? E depois do sucedido, tens de continuar a dar aula com a restante turma, como se nada fosse, numa espécie de "sorrir e acenar" e num ambiente crispado (e solidária comigo? Com o colega? ) ou de troça silenciosa perante a adulta que teve muitas dificuldades em lidar com a cena. Estou aqui num furo a e...

O Pedro faz 16 anos

Há uns anos, neste dia, uma colega disse-me "Que interessante, o número dele é o 7", com aquele ar que as pessoas têm quando falam de coisas místicas. Como não desenvolvi conversa, não sei o que significa. Relato o episódio aqui para ser uma espécie de introdução, porque pouca coisa tenho a dizer. Tudo, ou quase tudo, já foi dito sobre esse miúdo que nos surpreende sempre.  Para mim, o Pedro é um infinitude de coisas e, hoje, está de parabéns. Não receberá a prenda desejada, a motorizada, porque, convenhamos, está...parvo, mas receberá abraços sentidos e longos que o farão revirar olhos e dizer "mãe, vá, chega". Adoro esse meu filho! 

Como este blog já foi um babyblog,

...parece-me certo deixar aqui registado que o meu mais velho votou hoje pela primeira vez (e que não me deixou tirar foto ao momento...).

Outra pequena nota

Hoje, fui ao Castelo de São Jorge, numa visita de estudo com um 9ºano. Ao descer as ruelas, já no regresso para o autocarro que esperava por nós em Alfama, entre casinhas pequenas de AL ou wines bar, o Tejo aparecia cinzento ,  como só janeiro sabe ser. Havia algo de triste: o frio, a chuva, a calçada escorregadia, o céu também ele cinzento ou, vá, plúmbeo, como dizem os escritores a sério quando descrevem nuvens. E nem a ideia de ser sexta-feira nem o riso dos alunos conseguiu aligeirar o ambiente.  Hoje, não tive dúvidas: Janeiro pede recolhimento. Eu, como sempre (2019 ou 2022 ), só quero hibernar.  

Pequenas notas sobre janeiro (que nunca mais chega ao fim)

O pai cá de casa foi operado, uma coisa aparatosa, de difícil recuperação.  (E eu que nunca tive vocação para enfermeira, com exceção dos tempos em que os miúdos eram pequenos e o colo era meio consolo para ambas as partes...) Acabámos de rever em família a série Guerra dos Tronos, eles pela segunda vez e nós, o pai de casa e eu, pela terceira. É uma série que continua a surpreender. Comprei o 1° volume porque o Pedro disse que os queria ler. Espero que sim, que esse miúdo não me lê nada e passa horas agarrado ao telemóvel ou à PlayStation.  (E eu que ando tão preocupada pela forma como eles falam, com pouco vocabulário ou com expressões parvas, que ouvem nas redes sociais e que repetem até à exaustão. Estupidificação em massa loading  ✅   ) Vi o filme "Batalha atrás de batalha". Inicialmente, achei que ia ver um daqueles filmes norte-americanos, com perseguições e tiros, e que ia detestar. Afinal vi um filme norte-americano, com perseguições e tiros, e muito bom! A ...

Resolução ou objetivo?

Fui pesquisar no blog os posts sobre "resoluções para o próximo ano" e encontrei vários, claro. O de 2013 parece-me o mais sensato, escrito depois de dois anos difíceis, de grande turbilhão emocional: " Por isso, neste novo ano, não tenho nenhuma resolução. Viver cada dia, esperando que chegue ao final do dia sem grandes inquietações ". Os meus filhos, no dia 1/01, falavam de objetivos para 2026 enquanto púnhamos a mesa para o almoço. "Mano, tens objetivos?" O que achei estranho na conversa? Várias coisas.  Ambos têm objetivos aliciantes.  Não usaram a palavra "resolução", que me leva a pensar que: 1.  Sabem que as resoluções só existem para não se cumprirem e não estão para isso.  2. Os objetivos são mais concretos e pressupõem planos de ação e foco constante e eles estão mesmo determinados a chegar ao de querem. 3. Lêem pouco e são de uma geração com outros léxicos, vá..., logo não conhecem a palavra "resolução ".  Estando apenas os t...