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Dia 46

Hoje há pouca coisa para dizer. Quer dizer, podia aqui relatar as coisas do dia mas não tem graça. Mas já que passaram por cá, tentemos. Uma aluna, a despedir-se da aula, disse-me "gosto de si stôra". Fofa. Também gosto dela mas não lhe disse. Cliquei no botão "encerrar reunião ". Não me interpretem mal, que até sou uma prof de afetos. Foi tudo uma questão de timing . Eu sou assim na vida: raramente faço um match de forma correta. "Vira à esquerda" e eu viro à direita. Telefonam, quero mesmo atender mas deslizo o botão "desligar". "D o you want to save this doc ?". Eu clico "no" e são uns nervos, ai senhores, que nem vos digo nada. Imagino-me no Tinder e era um caso perdido. Era fazer match com aqueles que dizem "andei na universidade da vida" quando queria mesmo aquele naco todo fit de olhos azuis e 10/15 anos mais novo. Quer dizer, acho que é assim que funciona a aplicação: tens de fazer match com outros, p...

Dia 45

Ainda não falei do pai cá de casa nestes dias de isolamento. Estando em lay-off pré-desemprego, tem tido tempo para fazer tudo. Eu ajudo-o quando dá. Tornou-se o arquétipo da dona de casa dos anos 50-60-70. Ao almoço, já só pensa no que vai fazer ao jantar e ao jantar, já esta inquieto com a refeição do dia seguinte. Já fez um pouco de tudo: do pão à sobremesa, da pizza ao prato vegetariano, do peixe assado ao lombo com molhos xpto. Enfim, enche-nos de calorias saborosas.  Neste confinamento, à semelhança de uma matrioska, vive confinado na cozinha, com poucos horizontes, facto que o aborrece. Por isso, tem alargado perspetivas e tem saído até ao corredor onde tem estado a betumar o chão. Prepara-se para nos tempos mortos, fazer uma parede de bladur no nosso quarto. A casa está sempre um mimo com ele mas enfim, aquele chão... Por enquanto, benzadeus , não se vislumbra emancipação. É que há uma família e uma casa para cuidar.

Dia 44

Pergunta: até quando é que vou manter este diário?  Acabo no fim do Estado de emergência? Acabo quando regressar presencialmente ao trabalho, lá para julho, por causa dos exames nacionais? Acabo quando regressarmos à normalidade, lá para as calendas?  Acaba quando for à rua todos os dias?  Acabo quando me faltar a inspiração? Acabo quando escreverem nos comentários - sim, eles também existem nos blogues - " oh Tella, se quiséssemos diários, íamos ler o da Anne Frank " ? Acabo quando tiver informação suficiente para ver a minha evolução enquanto ser num contexto excecional como este?  Acabo quando estiver farta? Acabo quando escrever muitas vezes seguidas "mais do mesmo, um dia encalhado entre o ontem e o amanhã" .  Acabo quando?  Em calhando, dir-me-ão vocês, acabo quando quero. Também pode ser, que isto não é nenhuma obrigação estipulada pelo psicólogo cujo nome desconheço e cuja experiência nunca tinha ouvido falar e que, sinceramente...

Livro 14 - Pedro

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A  vontade de ler Lucky Luke continua. Preferia que ele mudasse de género mas não me imponho.

Livro 7 - Tiago

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"O início do livro é confuso e estava um pouco perdido porque não apareceu logo o James. Mas depois percebe-se e é muito fixe."  Os livros da Cherub nunca falham, nem a Wook a entregar livros em 24 horas. Hoje chegam  mais dois. 

Dia 43

1. Há dias em que acho que nada faz sentido, que detesto dar aulas online, que não estou a ensinar nada, que não estou a aprender nada também, que sou má mãe e má esposa, que não ligo a ninguém, que já chega de isolamento social, que me quero rir com os meus colegas, que aquela reunião de amigos às 18h, às sextas no zoom e com um copo na mão não basta, que está tudo desarrumado e que aquele chão pá, filho da mãe, está sempre sujo.  "Deixa-me beber para esquecer" é o leme desses dias de neura. 2. Há dias em que acho que olha, é a vida, o que havemos de fazer? Estamos aqui e aqui temos de estar e bola baixa que tenho é muita sorte, um emprego com ordenado certo, em tempo de Covid quase que parece um privilégio. Basta olhar para o pai cá de casa e nem me estou a queixar disso que temos é muita sorte. O pior é o chão sujo verdade seja dita, mas também é de ter em conta que somos 4 + 2 gatos.  "Haja vinho" é o leme desses dias de sujeição. 3. Há dias em que a...

Dia 42

O meu avô materno foi o homem que me iniciou nas cartas. Com ele aprendi  a jogar à bisca, às orelhas e à batalha. Falou-me da sueca mas nunca jogávamos porque éramos só 3.  Já o disse há uns tempos, raramente estava em casa mas quando estava, jogávamos durante horas às cartas. Ele era batoteiro e ria-se sempre muito quando o fazia. Era das poucas vezes em que a minha avó também se ria com ele. A minha avó esquecia tudo quando éramos os 3  a jogar e a rir, no meio de muitos palavrões da minha avó, típica mulher do Norte. "Ó foda-se" ou " Filho da punha" como ela dizia. Puta era só para a outra. Ele fazia mil truques de magia com as cartas. Ficava fascinada com aquilo e quis sempre que ele me dissesse como o fazia. Nunca o fez. Enganava-me com contas que eu nem entendia e fazia-me crer que era uma coisa de números e de magia. Ria-se da minha ingenuidade. Eu ria-me também mas às vezes ficava aborrecida por não entender como. Hoje e somente hoje é que me lembre...

Livro 13 - Pedro

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"Este é mesmo giro".

Dia 41

Há pessoas para quem o dia mais importante do ano é  o dia de anos, o dia do nascimento de um filho ou o dia de Natal. Para mim, é hoje: 25 de Abril. O dia que nos deu a possibilidade de abraçar o mundo da forma que quisermos será sempre para mim um dia luminoso. Este é o dia em que me emociono com o Zeca, com os poemas do Manuel Alegre, com as imagens do povo a gritar "Vitória, Vitória ", com o Salgueiro Maia, o meu herói para todo o sempre, com as imagens a preto e branco do arquivo da RTP, com as frases que fizeram a nossa revolução, com quem diz "25 de Abril sempre " com a voz embargada. Hoje é o dia 1 de todos os outros dias.  Hoje, no dia mais importante do isolamento, compraram-se 4 cravos, aplaudiram-se alguns discursos da AR, vaiaram-se outros, cantou-se o Grândola à janela com duas colunas a acompanhar, viu-se um documentário sobre o nosso super-herói, fez-se um almoço especial com vinho ainda mais especial, cantaram-se músicas de intervenção com o...

Dia 40

Cheguei ao meu quadragésimo dia de isolamento social.  No dia 1, acreditei que iríamos retomar as nossas vidas dentro de 15 dias, que estaria a iniciar o terceiro período na escola e a perspetiva de ficar uns dias em casa era encarada como positivo. Pensei que ia correr todos os dias, que ia dar uma volta às coisas cá de casa, que ia ler mais, que ia ver mais filmes e que íamos estar sempre felizes e contentes.  Não podia estar mais enganada. Percebe-se que os oráculos não são uma ciência que domino. Errei em todas as frentes. O tempo passou rápido ou devagar? Não sei. A sucessão de dias quase todos iguais dificulta a resposta. Arrependo-me não ter ido para a aldeia antes do estado de emergência. Teria sido mais saudável para todos, pois há uma eira, uma horta, um páteo. Fechados num apartamento sem varanda, tornamo-nos mais cinzentos e aborrecemo-nos mais rapidamente connosco e com os outros. Estou quase a acabar o isolamento, por decreto próprio de mim para mim....

Dia 39

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A Fifi morreu há precisamente um ano.  Há quem diga que não há amor como o primeiro. No caso dos gatos, quase que posso assegurar que é verdade. A Fifi foi (é) a gata do meu coração. Os outros de quem cuido e de quem eu gosto não são nem nunca serão a Fifi. Falta-nos qualquer coisa. Ela quase que me obrigava a deitar na cama quando chegava à casa para me dar beijos. Era assim tipo um melaço pegado.  Tínhamos uma ligação que achava impossível entre um humano e um felino.  Foi uma gata única. Como o Zorbas , gata boa, gata nobre.   Em tempo de isolamento, constatei que o Pedro se abraça mais ao James do que a nós. Têm uma ligação que também achava impossível entre uma criança e um gato. O meu mais novo não gosta de abraçar pessoas ou de ser abraçado durante muito tempo mas não o larga. Até se torna aborrecido, o moço. Ele faz gato sapato do bicho. Abraça o James minutos seguidos, de olhos fechados;  fala com ele; dá-lhe colo, faz-lhe festinhas a toda...

Dia 38

Hoje foi o dia em que larguei os chinelos. Duas amigas já tinham mencionado o problema, mas achei que eram princesas como aquela da ervilha. (Peço um minuto de silêncio pelas crianças que têm ainda de levar com este conto e os seus estereótipos de género na escola...)  "Chinelos a magoarem os pés? P'lamor de deus!" - pensei eu. Pois, mas lá está, tive também de os largar porque estavam a magoar-me horrivelmente a sola dos pés. Ando de ténis (lavados) em casa. Não bate certo, eu sei, mas o que bate certo neste momento? Já que o tópico de hoje está centrado nas zonas do corpo, vou aproveitar para dizer que tenho tido uma pontada nas costas quando acordo, dando a antever que me falta pouco para sair da cama a coxear e claro, com uma mão no rim /anca, tal como vejo na tevê.  Mas há mais. Os ouvidos estão muito aquém da sua eficiência. "O quê? Disseste onde está o Jeremias?" - perguntava hoje a um aluno. Do outro lado do ecran, oiço "...

Livro 12 - Pedro

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"Uma BD por dia nem sabe o bem que lhe fazia."

Dia 37

Um, dois, som. Som, som, experiência. Estão a ouvir-me? Ótimo.  Não quero interferências  no que vou dizer. Estou saturada, cansada, enjoADA, FARTA DISTO TUDO! Ele é aulas online das 8h10 ou 8h55 às 16h00; ele é corrigir trabalhos e mais trabalhos, ele é criar materiais que pensas que vão resultar online para depois perceber que não resultam, ele é os emails deste e daquele e aos quais tens de responder; ele é a net que falha quando estás a dar aulas; ele é a sensação que não estás a ensinar nada; ele é o rabo sentado horas seguidas em frente ao PC; ele é a falta de liberdade e ele é o chão sempre sujo, embora diariamente limpo. Será este, quiçá, o grande mistério do isolamento social quanto a mim: como e por que razão se suja tanto o nosso chão?  É caso para dizer, hoje mais do que nunca (e ainda não chegamos às 18h): haja vinho!

Dia 36

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Em tempo de Covid, há uma moda à qual este blog se junta: mostrar gráficos. Embora o meu seja fútil e inócuo, ao contrário dos outros, vou partilhar o meu gráfico  para verem que tive numa semana, entre dia 14 e hoje, trigésimo sexto dia de isolamento ,  795 pessoas a passar por cá. Uau, há pelo menos 100 pessoas por dia a lerem-me.  Cresci enquanto blog.  Fico pasmada e na verdade não percebo bem o porquê desse aumento, que isso, enfim, é só um espaço onde sou bastante eu e esse eu  nem sempre tem coisas notáveis para relatar ou refletir. Como o que escrevo não tem assim tanto interesse e tendo em conta que não ofereço giveaways , chego à conclusão que em tempo de  Covi d, quereis   ocupar o tempo com coisas que vos fazem pensar pouco. Este blog é ótimo nesse aspeto: não se leva a sério, não aborda temáticas fraturantes como se o Parlamento deve ou não celebrar o 25 de Abril, e vá, ajuda a passar o tempo.  Obrigada caros leitores por...

Livro 11 - Pedro

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(E conta-me pormenores sobre as personagens. Tédioooooo, que não gosto muito do Lucky Luke.)

Dia 35

A consistência não é nenhuma virtude, sobretudo em tempos de isolamento.  Ora vejam. Ponho em causa o que disse há 1 dia ou há uma hora, renegando as minhas ideias que até há pouco eram geniais. Tomo decisões irrevogáveis que nos minutos seguintes são esquecidas. Digo uma coisa e o seu oposto na mesma frase, quase, já sem saber se sim ou se não ou se sopas. Faço desporto até quase não ter forças e como bolachas de chocolate e fatias de panetone em abril. Penso que tenho de reduzir o consumo de álcool mas encomendo 12 garrafas de vinho. Tenho cartas para ganhar uma volta na sueca (ou lá como se diz, que sou pouco de termos técnicos) mas sem me aperceber faço renúncia e dou 4 pontos de mão beijada aos adversários, velhacos.  A sério, será que a inconsistência é o sinal que me mostra todo o meu verdadeiro eu: uma pessoa que não joga com o baralho todo (metafórica e literalmente falando)?  Dia 35 foi sobretudo isso.

Livro 6 - Tiago

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"Acho injusto. O stôr de português disse-me que tinha de fazer uma apresentação de um livro mas não aceita os da Cherub."

Dia 34

Já não consigo estar em casa, mas remédio, tenho de aguentar. Tenho a ideia, errada de certeza, que anda tudo na rua menos nós.  Não fazemos passeios higiénicos. Cada um sabe de si. Cada um faz o que acha que deve fazer.  Aos fins de semana, não há nada para fazer, nem o livro , nem a TV, nem a sueca, que perdemos invariavelmente, malandros, me despertam atenção. Que vazio. O que faço? Durmo o dia todo. Sinto-me um urso a querer hibernar e a querer acordar, já numa primavera normal.  Quando se passa o dia a dormir, mesmo que seja depois do trabalho, parece que o tempo passa mais rápido. As horas passaram e não as vimos. Parece que elas foram subtraídas ao tempo de isolamento, faltando assim já pouco tempo para o dia seguinte e para o outro e ainda para o outro, até se chegar ao fim. [suspiros] Estou fartinha desta vida suspensa, sem sentido.  Vamos ficar assim quanto tempo?  Já chega, não? [Há dias assim, onde nem o vinho alegra.]

Dia 33

Foi o dia em que ouvi o meu filho mais velho dizer ao meu filho mais novo "Que seca, estás sempre a ler agora!". Foi também o dia em que tive um intruso numa sala de aula e não gostei nem um pouco. Foram 30 segundos que me lixaram. Como é que conseguiu  entrar?  Foi ainda o dia em que uma colega veio cá à casa buscar uma coisa que precisava e que eu tinha e ficámos na rua a falar uma com a outra, respeitando a distância mas sempre a dar ora um passo em frente ora um passo para trás.