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Dia 7

Mais uma voltinha, mais umas horas fechados em casa, não é? A gostar?  Aqui, olhem, cá vamos andando.  Há dias em que só me apetece ficar em casa e pronto, foi isso que sucedeu. Sei que não estou a dar nenhuma novidade mas há posts assim, simples e sem grande profundidade. Como continuam a andar por cá, suponho que não se importam, não é? Não andam aqui à procura de grandes vôos, já vos conheço meus caros leitores. [Amanhã poderá haver coisas mais interessantes mas vá, ide sem grandes expetativas, que andamos a viver num mundo sem certezas. Tá ?]

Dia 6

Acordei às 7h00 no sofá. Adormeci ontem antes das 23h, claro. Dizem, mas eu não acredito, que sou super antipática quando  me querem acordar para ir para cama. O Tiago disse que lhe dei uma estalada, o Pedro disse que sou má e o pai cá de casa revirou olhos dizendo "há anos que me deixei de te acordar!". Pelo vistos,  ninguém me agarra quando estou numa espécie de transe. Acordei com a boca seca. Nada a ver com o vinho de ontem, pensei, deve ser do AC. Acordei agarrada às cruzes, que custa dormir no sofá. Depois, agarrei-me aos (poucos) cabelos: "que horror: nem o telemóvel me carregaram, pá!". Por segundos, fiquei nervosa. O mundo a acontecer, mesmo confinados, e eu não o acompanho.  Quis agarrar-me aos ténis para ir correr mas o meu olhar cruzou-se com as 9 turmas para corrigir e agarrei-me estoicamente ao trabalho. Foi assim, certos e errados, até ao almoço.  À tarde, continuei a ver testes mas debaixo da mantinha e em frente da lareira: o sono agarrou-me e eu de...

Dia 5

O confinamento do dia 5 é de apenas uma hora. A partir das 23h, casa! Ó senhores, deixem-me dizer-vos que esse xixi/cama a partir das 23h00 já  é prática corrente, cá em casa, às sextas desde ...puffff...desde há uma vida quase. Ai, não sei o que é pior: este confinamento de sexta ou as minhas sextas-feiras à noite, tour court.  

Dia 4

Irritei-me tanto com eles por causa da escola, do estudo, da dependência dos ecrãs que até eu já não me consigo ouvir. "Tiago, vai estudar", "não, não podes jogar PS2", "desliga o telemóvel ", "não mexes no telemóvel  sem a minha autorização ", "Meninos, no final do período é que acertamos contas", "Tiago, tens 3 testes em 3 dias. Vai ESTUDAR."  Ficaram cansados? Eu também. Eles mais ainda. Mas como se consegue estar confinado umas horas e estar desligado muito tempo dos tik tok e do fortnite? Em casa, desde o isolamento de março que os miúdos ficaram completamente viciados nisso e eu não consigo encontrar nada que os faça estar o mesmo número de horas agarrado a tudo isso e entusiasmados. Nem no estudo, obviamente.  Felizmente encontramos  uma série curtíssima que nos agarrou aos quatro e que limitou a ps, o telemóvel ou o PC: a série portuguesa "O atentado", disponível na RtpPlay. Conta a história do atentado ao Sa...

Dia 3

Hoje, enquanto pude claro, que sou uma pessoa que acho tudo isso exagerado [e ao escrever isso, estou a apontar para toda a situação atual] mas que cumpre, fui ter com uma amiga. Deu-me um livro traduzido por ela. Não o confessei mas fiquei super contente. Primeiro porque receber um livro alegra-me só por si e depois porque é um livro que lhe pertence também, que não pariu mas que ajudou a crescer. Partilhou comigo, assim toma lá, dá cá a sua marca.  Entusiasmo-me com pouco ou alegro-me com muito, depende da perspetiva das pessoas. Vamos deixar assim a coisa, a fluir, com cada um a pensar nesta última ideia, hein? É coisa pouca que também não vos vai ocupar muito tempo, certo?  18h45, ui, a conversa está boa mas chegou a hora dum drink, que nem tudo pode ser reflexões sérias ou ainda  sociedade recoletoras, agropastoris, celtas e o diabo a quatro. Sim, o estudo de hgp continuou, ******-se! 

Dia 2

Dediquei-me à leitura. Li mais hoje do que nas últimas semanas. Novembro tem sido um mês mau. Estive a ler, sentada no sofá,  em frente à lareira e fui transportada para o Brasil. Embrulha confinamento! Pelo meio, houve estudo "a sério" com o miúdo e 4 perguntas: o que te deixa realmente feliz? O que te entristece? O que te assusta verdadeiramente?  O que te surpreende mesmo ? Estar em casa com as portas fechadas mesmo que só umas horas, obriga-nos a abrir umas ou outras janelas. Hoje abri a janela da língua, com o seu ritmo próprio e variações com o açougue, o doniestela, o "te disse que tem", e a janela das emoções.  Nem sempre temos de abrir uma garrafa.  Mentira, temos também de o fazer.

Dia 1

O confinamento a partir das 13h já começou há duas semanas mas só ontem é que senti a cena. Achei então que devia retomar o meu #diariodocovid, mudando-lhe o nome, atualizando-o, tornando-o mais jovens e desempoeirado. Vai daí, surgiu a ideia do diario de um semi confinamento . Nada de especial, eu sei, mas já nos conhecemos há uns tempos, e entre nós, a expetativa é baixa, reciprocamente falando, claro, que não estou aqui para ofender ninguém. O que aconteceu ontem, no dia 1? Um vinho branco francês Chardonnay , oh lá lá mes chers , que me caiu para lá de Paris, ah oui, oui e que me obrigou, le malandro, a uma paragem no sofá para pôr a vida em perspetiva, claro. Tive também de sacrificar a tarde de estudo com o meu mai'novo que estava todo lançado com o clima temperado mediterrâneo,continental e o diabo a quatro. Ele agradeceu e olhou-me com aqueles olhos ainda tão inocentes a dizer-me "Obrigada mãe. Prometo que amanhã estudamos a sério e muito".   Quis sair. Ir para qu...

Dia 53 - editado

Continuo a contar os dias porque a vida de desconfiamento é igualzinha à vida de confinamento.  Continuamos a trabalhar em casa e sem sair ou passeios higiénicos.  Dito isso: 1) Comprei online os meus dois primeiros fatos de banho. As gorduras localizadas, as estrias e a idade ditaram o início desse novo ciclo. Achei que era mais fácil esconder isso tudo do que fechar a boca. Não me consigo controlar.  2) Voltei a usar relógio (são 12:42 e dei 740 passos - 0,5% dos passos que devo dar. Não tarda nada, vai recambiado para a gaveta.)

Dia 50

O meu quinquagésimo dia de isolamento coincide com o primeiro dia de desconfiamento. 50 é o número certo para abrir a porta à normalidade mas também para pôr um fim o meu diário. Este será o último* #diariodocovid.  (Re)lendo os 50 diários mais uns quantos "coisas boas do isolamento social" e tendo em conta que o objetivo inicial era ver a minha evolução, percebo que chamar evolução ao que me aconteceu é capaz ser um exagero. Senão vejamos:  1) a inconsistência é o meu nome do meio, 2) demorei um certo tempo a relativizar as questões do trabalho/ensino à distância; 3) panico em demasia;  4) se não fui ao hospital por causa do Covid, ainda posso lá bater com os costados por causa de uma cirrose; 5) passei de "isso não há de ser nada" para "isso é o fim do mundo" num ápice (o tal panicanço );  6) continuo sem respostas para o mistério que envolve o meu chão constantemente sujo;  7) olhei mais para dentro de mim e descobri que tenho vári...

Dia 49

No dia da mãe, as crianças oferecem prendinhas feitas na escola e as mães, com olhar embevecido, guardam-nas, dizem.  Eu não. Vão para o lixo nesse mesmo dia ou no dia seguinte. Não me interpretem mal, que amo muito os meus filhos, assim do coração, sangue do meu sangue e mais uns quantos chavões do costume mas não guardo tralhas. Acho tudo inútil. "Ah Tella, eles gostam de fazer as prendinhas". Eu sei isso tudo mas lixo na mesma.  Ontem, gozavam comigo. "Mãe, vamos fazer uns desenhos para o dia da mãe e vais guardá-los 3 segundos. Consegues? " Ai os meus ricos filhos, que conseguem sempre fazer-me rir, tanto como me fazem exasperar (e talvez mais nestes dias de confinamento). A maternidade, sempre com mil encantos. 

Dia 48

Novos tempos estes em que fui ao mercado com máscara, pela primeira vez, mas sem relógio e sem soutien. O pior foi a brisa sentida e pronto, estão a ver a cena, certo?  Isso. 

Dia 47

Faltam 14 minutos para acabar o quadragésimo sétimo dia de isolamento e não há grande coisa para narrar.  Acabámos a 1a temporada de Friends. O Tiago insistiu para ver porque à terceira é que é. Eu estava mais a pensar que não há duas sem três e que íamos desistir outra vez. Fomos vendo e dizendo uns aos outros que até era fixe. Acho que estávamos a tentar convencer-nos que podíamos deixar  correr a coisa. Os miúdos gostam mais do que eu. Acho aquilo demasiado datado embora reconheça que há piadas que foram aproveitadas 20 anos depois no How I meet. E não acho que tenha assim tanta piada. Ainda não percebi a loucura toda à volta da série.  Ah e entramos em maio, como repararam.  E é só isso hoje.

Dia 46

Hoje há pouca coisa para dizer. Quer dizer, podia aqui relatar as coisas do dia mas não tem graça. Mas já que passaram por cá, tentemos. Uma aluna, a despedir-se da aula, disse-me "gosto de si stôra". Fofa. Também gosto dela mas não lhe disse. Cliquei no botão "encerrar reunião ". Não me interpretem mal, que até sou uma prof de afetos. Foi tudo uma questão de timing . Eu sou assim na vida: raramente faço um match de forma correta. "Vira à esquerda" e eu viro à direita. Telefonam, quero mesmo atender mas deslizo o botão "desligar". "D o you want to save this doc ?". Eu clico "no" e são uns nervos, ai senhores, que nem vos digo nada. Imagino-me no Tinder e era um caso perdido. Era fazer match com aqueles que dizem "andei na universidade da vida" quando queria mesmo aquele naco todo fit de olhos azuis e 10/15 anos mais novo. Quer dizer, acho que é assim que funciona a aplicação: tens de fazer match com outros, p...

Dia 45

Ainda não falei do pai cá de casa nestes dias de isolamento. Estando em lay-off pré-desemprego, tem tido tempo para fazer tudo. Eu ajudo-o quando dá. Tornou-se o arquétipo da dona de casa dos anos 50-60-70. Ao almoço, já só pensa no que vai fazer ao jantar e ao jantar, já esta inquieto com a refeição do dia seguinte. Já fez um pouco de tudo: do pão à sobremesa, da pizza ao prato vegetariano, do peixe assado ao lombo com molhos xpto. Enfim, enche-nos de calorias saborosas.  Neste confinamento, à semelhança de uma matrioska, vive confinado na cozinha, com poucos horizontes, facto que o aborrece. Por isso, tem alargado perspetivas e tem saído até ao corredor onde tem estado a betumar o chão. Prepara-se para nos tempos mortos, fazer uma parede de bladur no nosso quarto. A casa está sempre um mimo com ele mas enfim, aquele chão... Por enquanto, benzadeus , não se vislumbra emancipação. É que há uma família e uma casa para cuidar.

Dia 44

Pergunta: até quando é que vou manter este diário?  Acabo no fim do Estado de emergência? Acabo quando regressar presencialmente ao trabalho, lá para julho, por causa dos exames nacionais? Acabo quando regressarmos à normalidade, lá para as calendas?  Acaba quando for à rua todos os dias?  Acabo quando me faltar a inspiração? Acabo quando escreverem nos comentários - sim, eles também existem nos blogues - " oh Tella, se quiséssemos diários, íamos ler o da Anne Frank " ? Acabo quando tiver informação suficiente para ver a minha evolução enquanto ser num contexto excecional como este?  Acabo quando estiver farta? Acabo quando escrever muitas vezes seguidas "mais do mesmo, um dia encalhado entre o ontem e o amanhã" .  Acabo quando?  Em calhando, dir-me-ão vocês, acabo quando quero. Também pode ser, que isto não é nenhuma obrigação estipulada pelo psicólogo cujo nome desconheço e cuja experiência nunca tinha ouvido falar e que, sinceramente...

Livro 7 - Tiago

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"O início do livro é confuso e estava um pouco perdido porque não apareceu logo o James. Mas depois percebe-se e é muito fixe."  Os livros da Cherub nunca falham, nem a Wook a entregar livros em 24 horas. Hoje chegam  mais dois. 

Dia 43

1. Há dias em que acho que nada faz sentido, que detesto dar aulas online, que não estou a ensinar nada, que não estou a aprender nada também, que sou má mãe e má esposa, que não ligo a ninguém, que já chega de isolamento social, que me quero rir com os meus colegas, que aquela reunião de amigos às 18h, às sextas no zoom e com um copo na mão não basta, que está tudo desarrumado e que aquele chão pá, filho da mãe, está sempre sujo.  "Deixa-me beber para esquecer" é o leme desses dias de neura. 2. Há dias em que acho que olha, é a vida, o que havemos de fazer? Estamos aqui e aqui temos de estar e bola baixa que tenho é muita sorte, um emprego com ordenado certo, em tempo de Covid quase que parece um privilégio. Basta olhar para o pai cá de casa e nem me estou a queixar disso que temos é muita sorte. O pior é o chão sujo verdade seja dita, mas também é de ter em conta que somos 4 + 2 gatos.  "Haja vinho" é o leme desses dias de sujeição. 3. Há dias em que a...

Dia 42

O meu avô materno foi o homem que me iniciou nas cartas. Com ele aprendi  a jogar à bisca, às orelhas e à batalha. Falou-me da sueca mas nunca jogávamos porque éramos só 3.  Já o disse há uns tempos, raramente estava em casa mas quando estava, jogávamos durante horas às cartas. Ele era batoteiro e ria-se sempre muito quando o fazia. Era das poucas vezes em que a minha avó também se ria com ele. A minha avó esquecia tudo quando éramos os 3  a jogar e a rir, no meio de muitos palavrões da minha avó, típica mulher do Norte. "Ó foda-se" ou " Filho da punha" como ela dizia. Puta era só para a outra. Ele fazia mil truques de magia com as cartas. Ficava fascinada com aquilo e quis sempre que ele me dissesse como o fazia. Nunca o fez. Enganava-me com contas que eu nem entendia e fazia-me crer que era uma coisa de números e de magia. Ria-se da minha ingenuidade. Eu ria-me também mas às vezes ficava aborrecida por não entender como. Hoje e somente hoje é que me lembre...

Dia 41

Há pessoas para quem o dia mais importante do ano é  o dia de anos, o dia do nascimento de um filho ou o dia de Natal. Para mim, é hoje: 25 de Abril. O dia que nos deu a possibilidade de abraçar o mundo da forma que quisermos será sempre para mim um dia luminoso. Este é o dia em que me emociono com o Zeca, com os poemas do Manuel Alegre, com as imagens do povo a gritar "Vitória, Vitória ", com o Salgueiro Maia, o meu herói para todo o sempre, com as imagens a preto e branco do arquivo da RTP, com as frases que fizeram a nossa revolução, com quem diz "25 de Abril sempre " com a voz embargada. Hoje é o dia 1 de todos os outros dias.  Hoje, no dia mais importante do isolamento, compraram-se 4 cravos, aplaudiram-se alguns discursos da AR, vaiaram-se outros, cantou-se o Grândola à janela com duas colunas a acompanhar, viu-se um documentário sobre o nosso super-herói, fez-se um almoço especial com vinho ainda mais especial, cantaram-se músicas de intervenção com o...

Dia 40

Cheguei ao meu quadragésimo dia de isolamento social.  No dia 1, acreditei que iríamos retomar as nossas vidas dentro de 15 dias, que estaria a iniciar o terceiro período na escola e a perspetiva de ficar uns dias em casa era encarada como positivo. Pensei que ia correr todos os dias, que ia dar uma volta às coisas cá de casa, que ia ler mais, que ia ver mais filmes e que íamos estar sempre felizes e contentes.  Não podia estar mais enganada. Percebe-se que os oráculos não são uma ciência que domino. Errei em todas as frentes. O tempo passou rápido ou devagar? Não sei. A sucessão de dias quase todos iguais dificulta a resposta. Arrependo-me não ter ido para a aldeia antes do estado de emergência. Teria sido mais saudável para todos, pois há uma eira, uma horta, um páteo. Fechados num apartamento sem varanda, tornamo-nos mais cinzentos e aborrecemo-nos mais rapidamente connosco e com os outros. Estou quase a acabar o isolamento, por decreto próprio de mim para mim....