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Desconfinando - 6

O primeiro passeio  a 4 desde que tudo isso começou. 

Desconfinando - 5

Digamos que já não existe nenhuma semelhança entre a Frida Kahlo e eu. Felizmente. 

Desconfinando - 4

Voltei a usar relógio depois da Mary escrever nos comentários para não o usar. Voltei portanto a contar passos: ontem, atingi 75% dos passos estipulados. É um início. 

Desconfinando - 3

Acabaram-se os saltinhos de contentamento. Acabou-se a liberdade. Voltei a usar soutien. 

Dia 53 - editado

Continuo a contar os dias porque a vida de desconfiamento é igualzinha à vida de confinamento.  Continuamos a trabalhar em casa e sem sair ou passeios higiénicos.  Dito isso: 1) Comprei online os meus dois primeiros fatos de banho. As gorduras localizadas, as estrias e a idade ditaram o início desse novo ciclo. Achei que era mais fácil esconder isso tudo do que fechar a boca. Não me consigo controlar.  2) Voltei a usar relógio (são 12:42 e dei 740 passos - 0,5% dos passos que devo dar. Não tarda nada, vai recambiado para a gaveta.)

Dia 50

O meu quinquagésimo dia de isolamento coincide com o primeiro dia de desconfiamento. 50 é o número certo para abrir a porta à normalidade mas também para pôr um fim o meu diário. Este será o último* #diariodocovid.  (Re)lendo os 50 diários mais uns quantos "coisas boas do isolamento social" e tendo em conta que o objetivo inicial era ver a minha evolução, percebo que chamar evolução ao que me aconteceu é capaz ser um exagero. Senão vejamos:  1) a inconsistência é o meu nome do meio, 2) demorei um certo tempo a relativizar as questões do trabalho/ensino à distância; 3) panico em demasia;  4) se não fui ao hospital por causa do Covid, ainda posso lá bater com os costados por causa de uma cirrose; 5) passei de "isso não há de ser nada" para "isso é o fim do mundo" num ápice (o tal panicanço );  6) continuo sem respostas para o mistério que envolve o meu chão constantemente sujo;  7) olhei mais para dentro de mim e descobri que tenho vári...

Dia 46

Hoje há pouca coisa para dizer. Quer dizer, podia aqui relatar as coisas do dia mas não tem graça. Mas já que passaram por cá, tentemos. Uma aluna, a despedir-se da aula, disse-me "gosto de si stôra". Fofa. Também gosto dela mas não lhe disse. Cliquei no botão "encerrar reunião ". Não me interpretem mal, que até sou uma prof de afetos. Foi tudo uma questão de timing . Eu sou assim na vida: raramente faço um match de forma correta. "Vira à esquerda" e eu viro à direita. Telefonam, quero mesmo atender mas deslizo o botão "desligar". "D o you want to save this doc ?". Eu clico "no" e são uns nervos, ai senhores, que nem vos digo nada. Imagino-me no Tinder e era um caso perdido. Era fazer match com aqueles que dizem "andei na universidade da vida" quando queria mesmo aquele naco todo fit de olhos azuis e 10/15 anos mais novo. Quer dizer, acho que é assim que funciona a aplicação: tens de fazer match com outros, p...

Dia 45

Ainda não falei do pai cá de casa nestes dias de isolamento. Estando em lay-off pré-desemprego, tem tido tempo para fazer tudo. Eu ajudo-o quando dá. Tornou-se o arquétipo da dona de casa dos anos 50-60-70. Ao almoço, já só pensa no que vai fazer ao jantar e ao jantar, já esta inquieto com a refeição do dia seguinte. Já fez um pouco de tudo: do pão à sobremesa, da pizza ao prato vegetariano, do peixe assado ao lombo com molhos xpto. Enfim, enche-nos de calorias saborosas.  Neste confinamento, à semelhança de uma matrioska, vive confinado na cozinha, com poucos horizontes, facto que o aborrece. Por isso, tem alargado perspetivas e tem saído até ao corredor onde tem estado a betumar o chão. Prepara-se para nos tempos mortos, fazer uma parede de bladur no nosso quarto. A casa está sempre um mimo com ele mas enfim, aquele chão... Por enquanto, benzadeus , não se vislumbra emancipação. É que há uma família e uma casa para cuidar.

Dia 44

Pergunta: até quando é que vou manter este diário?  Acabo no fim do Estado de emergência? Acabo quando regressar presencialmente ao trabalho, lá para julho, por causa dos exames nacionais? Acabo quando regressarmos à normalidade, lá para as calendas?  Acaba quando for à rua todos os dias?  Acabo quando me faltar a inspiração? Acabo quando escreverem nos comentários - sim, eles também existem nos blogues - " oh Tella, se quiséssemos diários, íamos ler o da Anne Frank " ? Acabo quando tiver informação suficiente para ver a minha evolução enquanto ser num contexto excecional como este?  Acabo quando estiver farta? Acabo quando escrever muitas vezes seguidas "mais do mesmo, um dia encalhado entre o ontem e o amanhã" .  Acabo quando?  Em calhando, dir-me-ão vocês, acabo quando quero. Também pode ser, que isto não é nenhuma obrigação estipulada pelo psicólogo cujo nome desconheço e cuja experiência nunca tinha ouvido falar e que, sinceramente...

Dia 43

1. Há dias em que acho que nada faz sentido, que detesto dar aulas online, que não estou a ensinar nada, que não estou a aprender nada também, que sou má mãe e má esposa, que não ligo a ninguém, que já chega de isolamento social, que me quero rir com os meus colegas, que aquela reunião de amigos às 18h, às sextas no zoom e com um copo na mão não basta, que está tudo desarrumado e que aquele chão pá, filho da mãe, está sempre sujo.  "Deixa-me beber para esquecer" é o leme desses dias de neura. 2. Há dias em que acho que olha, é a vida, o que havemos de fazer? Estamos aqui e aqui temos de estar e bola baixa que tenho é muita sorte, um emprego com ordenado certo, em tempo de Covid quase que parece um privilégio. Basta olhar para o pai cá de casa e nem me estou a queixar disso que temos é muita sorte. O pior é o chão sujo verdade seja dita, mas também é de ter em conta que somos 4 + 2 gatos.  "Haja vinho" é o leme desses dias de sujeição. 3. Há dias em que a...

Dia 42

O meu avô materno foi o homem que me iniciou nas cartas. Com ele aprendi  a jogar à bisca, às orelhas e à batalha. Falou-me da sueca mas nunca jogávamos porque éramos só 3.  Já o disse há uns tempos, raramente estava em casa mas quando estava, jogávamos durante horas às cartas. Ele era batoteiro e ria-se sempre muito quando o fazia. Era das poucas vezes em que a minha avó também se ria com ele. A minha avó esquecia tudo quando éramos os 3  a jogar e a rir, no meio de muitos palavrões da minha avó, típica mulher do Norte. "Ó foda-se" ou " Filho da punha" como ela dizia. Puta era só para a outra. Ele fazia mil truques de magia com as cartas. Ficava fascinada com aquilo e quis sempre que ele me dissesse como o fazia. Nunca o fez. Enganava-me com contas que eu nem entendia e fazia-me crer que era uma coisa de números e de magia. Ria-se da minha ingenuidade. Eu ria-me também mas às vezes ficava aborrecida por não entender como. Hoje e somente hoje é que me lembre...

Dia 41

Há pessoas para quem o dia mais importante do ano é  o dia de anos, o dia do nascimento de um filho ou o dia de Natal. Para mim, é hoje: 25 de Abril. O dia que nos deu a possibilidade de abraçar o mundo da forma que quisermos será sempre para mim um dia luminoso. Este é o dia em que me emociono com o Zeca, com os poemas do Manuel Alegre, com as imagens do povo a gritar "Vitória, Vitória ", com o Salgueiro Maia, o meu herói para todo o sempre, com as imagens a preto e branco do arquivo da RTP, com as frases que fizeram a nossa revolução, com quem diz "25 de Abril sempre " com a voz embargada. Hoje é o dia 1 de todos os outros dias.  Hoje, no dia mais importante do isolamento, compraram-se 4 cravos, aplaudiram-se alguns discursos da AR, vaiaram-se outros, cantou-se o Grândola à janela com duas colunas a acompanhar, viu-se um documentário sobre o nosso super-herói, fez-se um almoço especial com vinho ainda mais especial, cantaram-se músicas de intervenção com o...

Dia 40

Cheguei ao meu quadragésimo dia de isolamento social.  No dia 1, acreditei que iríamos retomar as nossas vidas dentro de 15 dias, que estaria a iniciar o terceiro período na escola e a perspetiva de ficar uns dias em casa era encarada como positivo. Pensei que ia correr todos os dias, que ia dar uma volta às coisas cá de casa, que ia ler mais, que ia ver mais filmes e que íamos estar sempre felizes e contentes.  Não podia estar mais enganada. Percebe-se que os oráculos não são uma ciência que domino. Errei em todas as frentes. O tempo passou rápido ou devagar? Não sei. A sucessão de dias quase todos iguais dificulta a resposta. Arrependo-me não ter ido para a aldeia antes do estado de emergência. Teria sido mais saudável para todos, pois há uma eira, uma horta, um páteo. Fechados num apartamento sem varanda, tornamo-nos mais cinzentos e aborrecemo-nos mais rapidamente connosco e com os outros. Estou quase a acabar o isolamento, por decreto próprio de mim para mim....

Dia 27

Hoje, alguém perguntava, neste blogue , qual a primeira coisa que vais fazer depois desta coisa que estamos a viver, deste isolamento que nos moí a cabeça e rebenta com o fígado? Não foi muito difícil encontrar a resposta: marcar jantares com aquelas pessoas com quem temos estado a adiar jantares porque " neste sábado, não dá; para o outro, o Zé Carlos não pode; então depois combinamos ". E já sabemos que na maior parte das vezes esses jantares são deixados para as calendas gregas. Não. Hei de marcar uma data e o Zé Carlos e a Maria Albertina estarão presentes.  Adiei tantos jantares, ou seja tanta conversa boa, tanta partilha, tantos risos, tantas memórias. É sobretudo disso que tenho saudades: de estar com a família e amigos, à mesa.  Tirando esta questão que me ocupou grande parte do tempo, pelas saudades que provocaram, fui gerindo o dia de hoje  encalhado também ele entre o ontem e amanhã , e com um copo de vinho tinto na mão que é mais chique e menos...

Coisas boas* do isolamento social - XIII

Não teremos que suportar as festas de encerramento do ano letivo nas escolas dos nossos filhos.  [*...porque é importante olhar para o copo e vê-lo meio cheio.]

Dia 24

Não tenho corrido grande coisa embora até me apeteça. Podia calçar os meus ténis e ir mas não me parece correto fazê-lo. Não me cruzo com ninguém, é certo mas se dizem que é para ficar em casa, tenho de ficar em casa. Depois das poucas corridas feitas nestes últimos 24 dias, senti sempre um certo peso na consciência por ter ido, que era ainda maior se o Guedes de Carvalho apresentasse o telejornal. Por isso decidi comprar um equipamento desportivo (que ocupa imenso espaço cá em casa). Chegou hoje a bicicleta elíptica e foi o auge do meu dia. Podia agora falar sobre a necessidade do desporto para me manter mais ou menos equilibrada para justificar uma compra relativamente fútil em tempos de incertezas. Mas não o vou fazer para não estragar o ambiente e para evitar eventualmente alguns revirares de olhos da vossa parte. (Estão proibidos de escrever comentário tipo "eu também tenho uma no sótão e só a usei uma vez"! Ainda estou na fase de encanto. )

Coisas boas* do isolamento social - XII

Ando a escrever muito mais e a (re)descobrir que gosto bastante de escrever.  Nestes dias de introspeção, em que tudo nos passa pela cabeça, passou pela minha a ideia de fazer um curso de escrita criativa, assim só para ver como é. ( Acho que nunca contei que por volta de 1991 / 92, comecei a escrever um livro num caderno A4 verde. Fiquei-me por  5 ou 10 parágrafos - não me recordo da extensão -  porque percebi que não era esse o caminho a seguir. De todo. Mas há vontades de criança que ficam cá para sempre, nem que seja para sorrir quando nos lembramos delas. Este blogue, onde se escreve coisas pouco interessantes e nem sempre notáveis, é uma réstia desse sonho.) [ *...porque é importante olhar para o copo e vê-lo meio cheio.]

Dia 23

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Ainda este dia era uma criança e já estava a ser merdoso. Encalhada entre um dia e outro, resolvi ontem, na loucura, beber um xícara de café Mokambo, às 22h30.  Estava à espera de quê, huum? Que a cafeína não fizesse efeito, quando a publicidade é bastante explícita, tipo "Diga bom dia com Mokambo..." ?  Percebi por que razão a música não diz "Diga boa noite com Mokambo..." Isso mesmo, não consegui pregar olho. Eram 3 da manhã e eu acordada. Mas não foi uma assonia qualquer. Foi uma insónia de isolamento social, daquelas do demo, que nos leva por caminhos enviesados, como bem sabeis. Parecia a Joana D'Arc a ouvir vozes na cabeça.  Levantei-me então abruptamente, por volta das 3h30, e fui molhar 2 bolachas duplas com recheio de chocolate numa outra xícara de leite de soja. Sem culpas nem nada. Parecia o CR7 com o seu "quesefoda". De manhã, as coisas não melhoraram. A casa, mais uma vez, estava cheia de pêlos, cabelo e cotão. Varri, aspirei e l...

Coisas boas* do isolamento social - XI

Com a pandemia, vemo-nos recolhidos em casa mas também dentro de nós. Somos obrigados a olhar para nós e a encarar quem somos.  Há uns anos, a Carolina disse que ninguém conhece ninguém, nem a si próprio. É verdade mas acho que agora, conseguimos conhecer melhor quem somos. O isolamento social ajuda a desmascarar aquela estranha que, afinal, ainda habita em nós. Isso é bom, a não ser que haja um psicopata aí algures escondido, claro.  (Acho piada porque leio vários blogues onde a conversa é muito idêntica: " pensava que era assim e afinal sou assada "; " sou uma pessoa aqui e outra acolá" ; "nem me reconheço ";  " pensava que era muito cool e afinal sou rígida"; "era muito picuinhas e afinal estou -me a borrifar para tudo", etc.)  No meu caso, pensava que era e seria uma sobrevivente e afinal percebi que sou e serei das primeiras a morrer em combate.   (*...porque é importante olhar para o copo e vê-lo meio cheio.) ...

Livro 7 - Pedro

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Deu-lhe 2/3 estrelas. Não gostou porque "não tem piada".